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Papo de Futuro: um olhar conceitual e prático da Educação Integral

05/05/2020

Papo de Futuro: um olhar conceitual e prático da Educação Integral

Em comemoração ao Dia Mundial da Educação (28 de abril), o episódio marca o lançamento da segunda edição do “Especial Práticas Pedagógicas Inovadoras”, com  20 práticas inéditas de ensino-aprendizagem e de gestão no contexto da Educação Integral. Criado em 2018, o Especial reúne um total de 40 experiências desenvolvidas por professores, coordenadores e gestores do NAVE, contribuindo para o fortalecimento da agenda da Educação Integral promovida pelo Centro de Referências em Educação Integral. Para Natacha Costa, diretora geral da Associação Cidade Escola Aprendiz e uma das maiores referências em Educação Integral no Brasil, “é fundamental no processo de aprendizagem compartilhar com os outros. No momento em que se comunica com o outro, você fecha seu ciclo de aprendizagem”.

Natacha é psicóloga, formada pela PUC-SP e, atualmente, integra o Conselho Estratégico Universidade-Sociedade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o Comitê Nacional para a Busca Ativa Escolar do UNICEF,  o Movimento de Inovação na Educação e o Conselho Consultivo do Núcleo de Projeto e Pesquisa em Cultura, Cidade, Gênero e Primeira Infância do Instituto Brasiliana/Universidade Mackenzie. Ela abordou o tema “Educação Integral – Práticas Inovadoras para o Ensino Médio”, durante o quinto webinar da série “Papo de Futuro”, organizada pelo Oi Futuro e transmitida toda quarta-feira, às 19h, pelo canal do Instituto no Youtube. Participaram também os professores Maiara Zacarone e Fernando Fernandes (NAVE Recife). Eles lecionam, respectivamente, no Colégio Estadual José Leite Lopes (NAVE Rio) e na Escola Técnica Estadual Cícero Dias (NAVE Recife), e relataram suas próprias experiências.

No encontro virtual, mediado por Fernanda Sarmento, especialista em Educação do Oi Futuro, Natacha, que também faz parte do Programa Líderes Transformadores da Educação da Fundação SM, reunindo educadores de nove países da América Latina e Espanha, e compõe a comunidade ativadora do programa Escolas Transformadoras no Brasil, ressaltou: “É no âmbito das metodologias que iremos de fato materializar o processo educativo”.

Confira outras 10 reflexões sobre o impacto das práticas inovadoras na Educação:

1)O conceito de Educação Integral

Muitas vezes, esse conceito pode ser interpretado como uma escola que está em período integral. O currículo integrado, as práticas interdisciplinares, tudo isso, de fato, está contemplado na Educação Integral, mas ela tem uma concepção muito mais ampla. As linhas de educação integral já contabilizam mais de 100 anos no Brasil, e muitos de nossos educadores, como Anísio Teixeira, são referências nesta discussão sobre o que é um educação de qualidade. Entende-se qualidade como uma educação que se compromete com a formação integral para todos os estudantes. A aprendizagem precisa caminhar junto com o desenvolvimento integral, como sujeitos multidimensionais, que não são apenas intelecto, mas que sejam também corpo, sociabilidade e que tenham a sua dimensão emocional e cultural. Vamos olhar para esse sujeito na sua integralidade e se comprometer com uma educação que não apenas se reduza a um processo de aquisição de certificados. É necessário pensar em um processo que vá além, que seja contextualizado, conectado com a vida. Precisa ganhar sentido na experiência dos estudantes, dos territórios onde a escola está colocada. Buscamos superar a ideia de uma educação que se dá por instrução para um processo educativo que investe na capacidade do estudante de produzir conhecimento e de colocar esse conhecimento em uso para transformar a realidade. Defende-se a questão da jornada ampliada, mas não é o tempo que define essa concepção e, sim, o projeto pedagógico. Há escolas de tempo integral que não fazem uma educação integral e outras com uma jornada regular que seguem a educação integral e transformadora. Vale a pena, também, destacar o olhar do professor.  Para construir de fato um projeto educativo, o professor deve ser respeitado como profissional que reflete sobre a sua prática, que produza conhecimento, que conheça seus estudantes, o contexto onde atua. E, como educadores, todos devem estar em processo de aprendizagem permanente.

2)O website “Práticas Inovadoras de Ensino Médio”

Para que o professor tenha um espaço de documentar, refletir,  implementar e aprimorar; de ser o pesquisador de suas própria prática, tudo tem que ser muito acordado. O website “Práticas Inovadoras de Ensino Médio” foi lançado em 2018 e reúne, agora, 40 práticas, ou seja, 40 experiências vividas pelos professores, coordenadores, gestores, para esse fortalecimento da agenda de Educação Integral. Assim, todas as práticas se alimentam das metodologias do príncípio de Educação Integral. Práticas para a Gestão, com iniciativas inovadoras; Práticas para o ensino-aprendizagem, com nova aprendizagem para os professores mediarem com os estudantes; Metodologias para gestão, com tendências inovadoras; Metodologias de ensino aprendizagem, com as mais recentes tendências. Qual o diferencial de 2018 para 2020? Todos estão mais orientados e mais articulados com a nova Base Nacional Comum Curricular. Outro princípio se refere aos objetivos do desenvolvimento sustentável, muito importante no momento de se iniciar esse norte da sistematização. O site tem dois grandes módulos: o Ensino e a Aprendizagem, que são as práticas, que podem estar tanto dentro da escola, quanto fora. E a Gestão, que são estratégias e práticas da direção escolar. As práticas têm Metodologias, que envolvem Gestão Democrática – espaços de decisão da escola compartilhado por toda a comunidade escolar; Planejamento Integrado – o local em que a escola está inserida é ocupado por diversos outros atores que podem enriquecer o percurso formativo dos estudantes; Tutoria – educador-tutor orienta e acompanha os alunos (individual e coletivamente) e definem juntos um roteiro de estudo ou trabalho; Ensino-aprendizagem no território – o processo educativo se estende para além dos muros da escola. Praças, museus, clubes e a própria rua são territórios de ensino. É o compartilhamento de saberes. Há três formas de organização das práticas, que são distribuídas em baixa, média e alta complexidade, e pensadas para serem adaptadas em qualquer contexto de aprendizagem.

3)O corpo, uma forma divertida de aprender

A prática Danças Folclóricas foi criada por Maiara Zacarone, que vem de uma formação em Dança, e precisava conscientizar os alunos que se pode aprender também pelo corpo. Entendendo, no entanto, que esses alunos estão no encerramento do Ensino Médio, próximo às provas do ENEM, que visam um conceito teórico. Em suas aulas, ela mescla as quatro linguagens artísticas – dança, música, teatro e artes plásticas, e mostra que não se aprende apenas com o papel e a caneta, mas também, com o corpo, porque é a nossa primeira forma de aprendizado. Cada bimestre procura trabalhar essas linguagens um pouco mais a fundo. No segundo semestre, aproveitando que agosto é o mês do folclore, se dedica a essas manifestações, tão ricas e distintas no Brasil. A prática acontece com uma troca de ideias, num primeiro momento, sobre alguns conhecimentos da cultura popular. Os alunos se dão conta dos ditos populares ouvidos em casa e brincadeiras, passadas de geração para geração. Conversam sobre festas típicas, nomes de alimentos, dentro de um clima descontraído. Em um segundo momento, ela os convida a experimentar tudo isso com as danças folclóricas, através do corpo. Sabe-se, no entanto, que quando se trabalha com o corpo ainda há um preconceito, principalmente, em relação ao público masculino, com medo da exposição. Mas, tudo é colocado de uma forma divertida, garantindo de que não haverá uma exposição de maneira pejorativa. Foram introduzidas duas danças: a do pezinho, proveniente mais do sul do Brasil, e da cana – verde, do centro-oeste (Goiás). Mostra os passos e pede que dancem em dupla, deixando que escolham o parceiro ou parceira com o qual se sintam mais confortáveis. A partir do momento em que entra a música, junto com a dança, os alunos já começam a propor ideias em cima do que experimentaram. Conversa-se sobre as roupas típicas usadas naquele contexto, valorizando a riqueza dos instrumentos e dos ritmos. E o resultado foi um ótimo engajamento em todas as turmas onde a aula foi aplicada. Parte desse engajamento é pelo fato de se sair do lugar comum da sala de aula. Estar inserida numa escola como a José Leite Lopes, da NAVE Rio, com um ensino técnico inovador, contribuiu muito para o sucesso da prática. Isso transforma a sala de aula num lugar de criação.

4)Os games no ensino dos invertebrados

Fernando Fernandes é professor de multimídia, ensina disciplinas voltadas à construção de jogos digitais e analógicos. A prática, “Games dos invertebrados – criando jogos para aprender sobre os invertebrados”, surgiu através da inquietação de uma professora, em relação ao conteúdo dos invertebrados, na disciplina de Biologia, com estudantes do segundo ano do Ensino Médio. Isso em consequência do teor da matéria ser bastante extenso e de uma certa dificuldade de assimilação. A ideia era não apenas simplificar, mas despertar o interesse dos alunos. Foi montado um plano para o projeto, e como os estudantes já tinha uma certa proficiência em desenvolver jogos analógicos, eles foram divididos em grupos e, através de algumas metodologias utilizadas, puderam escolher entre Anelídeos, Aracnídeos, e várias outras espécies. Desenvolveram os projetos de jogos em etapas. A primeira, de uma semana, foi para entender. A segunda, para definir o que iriam fazer. Em seguida, começaram a ter ideias, desenhando, ajustando algumas coisas e desenvolvendo protótipos. A partir daí, começaram a testar junto aos estudantes, professores e, até em casa, com os familiares. Quando os jogos já estavam 100 por cento, eles partiram para a parte final e conclusiva, utilizando alguns aplicativos. Foi criado um manual de regras, onde estavam todos os elementos presentes no jogo. Enfim, além de construírem esse jogo para próprio uso, poderiam disponibilizá-lo para qualquer pessoa. É uma forma bem diferente de aprender. Os jogos dão outro significado ao conhecimento. Os alunos conseguem assimilar mais facilmente o conteúdo. É importante ressaltar também como a ludicidade esteve presente na escola, por meio de pesquisa e da sensibilidade.

5)Leitura das metodologias

Como pensar a Educação Integral? Um aspecto é a questão das multilinguagens, que faz parte de uma educação contemporânea. Como a experiência, os saberes, o território, a cultura das famílias vai ganhando um lugar de destaque? Construímos uma escola em que os saberes populares ficaram secundarizados e os saberes acadêmicos se tornaram mais relevantes. É no diálogo entre os saberes acadêmicos e das pessoas que se constrói um conhecimento significativo. Como é importante que o estudante se sinta apropriado e engajado e possa acessar as referências de suas famílias. Outro aspecto que aparece nesta discussão, apresentada na prática do corpo como uma forma de aprender, são as questões de gênero, como o preconceito “dançar não é coisa de homem”.  Como é relevante trabalhar este tema, tanto com os meninos, quanto as meninas! Vemos nestas práticas o pensamento criativo, o pensamento científico e como tudo isso se articula às áreas do conhecimento. Outro exemplo é construir, a partir das ferramentas do design, um percurso de um trabalho coletivo que deu base a um processo de pesquisa de definição do projeto e de divisão de tarefas e de criar protótipos, no caso do ensino dos invertebrados, através de games. O quanto é importante sair da abstração para alguma coisa que possamos criar. A relação entre a materialização, portanto, as competências, e as áreas do conhecimento se dá pela metodologia. Se quisermos um sujeito que reproduza a informação precisamos lançar mão de uma determinada metodologia. Mas, se quisermos um sujeito capaz de pensar, buscar, pesquisar, produzir conhecimento, analisar e argumentar, vamos precisar de outras estratégias.  Há algumas metodologias que não se aplicam a todas as práticas, mas que constituem metodologias de referência. A metodologia da experimentação, por exemplo, permite a criação de desafios, o desenvolvimento de problemas e de encarar os conflitos. O conhecimento no mundo não é fragmentado. As práticas vão conectando algumas das metodologias, de acordo com a intencionalidade pedagógica daquela atividade.

6)Os desafios do momento

Como garantir o desenvolvimento pleno de um aluno de forma integral, em época de pandemia? Como as redes de escolas vêm enfrentando esse desafio? Em um país com muitas desigualdades, há um grande desafio para que a educação chegue a todos. Não é possível transferir a escola para dentro de casa. As condições de vida das famílias em muitos contextos não são ideais. Mesmo aquelas socioeconomicamente privilegiadas não têm práticas de mediação de processos de aprendizagem. Há inúmeras questões de acessibilidade. A maior parte dos domicílios não tem acesso à internet banda larga, os recursos digitais não chegam para todos. Essa natureza de trabalho pedagógico não pode ser transposta para a plataforma digital. Nesse momento, é preciso adequar os objetivos educacionais. O que é desejável? Não queremos deixar as famílias sozinhas. Mais do que fixar numa ideia de manter o currículo como ele é, nós devemos nos aproximar das famílias, apoiá-las, saber as suas demandas. Sabemos da situação de que as múltiplas vulnerabilidades devem se agravar. Então, entender esse contexto pode nos ajudar a contextualizar as propostas. É a mesma coisa com os estudantes. Diversificar as formas de acesso deles e manter uma relação, o máximo possível, próxima. Nesse contexto, há dois aspectos importantes: o trabalho coletivo dos professores, gestores e coordenadores pedagógicos tem sido fundamental para que as propostas cheguem mais rápido, e o reconhecimento dos saberes dos estudantes e das famílias. Não é uma tarefa fácil.

7)A reinvenção das aulas

No caso específico das aulas da Maiara Zacarone, no NAVE Rio, o primeiro momento foi o de colocar para os alunos o fato de quanto o professor gostaria de estar junto em sala de aula para desenvolver essas práticas e de quanto apreciaria estar no ambiente deles.  Inicialmente, foi uma conversa através de textos e vídeos curtos, para que não se dispersassem muito, estabelecendo uma revisão do que vinha acontecendo presencialmente. E do que ficou incompleto. Estavam no meio de uma atividade em sala de aula, que ficou parada e será retomada depois. É importante considerar as diversas organizações familiares, as inúmeras formas de acesso. Para os alunos do segundo ano, por exemplo, o tema trabalhado foi a Bossa-Nova, e foi solicitado que ouvissem música em casa com as famílias e resgatassem histórias. O objetivo foi interagir e tentar dar continuidade ao planejamento do início do ano. No relato de Fernando Fernandes, esse momento que estamos atravessando é de adaptação e incerteza. E adaptação gera muita inquietude. Apesar das dificuldades, há saídas – algumas interessantes, outras não. Melhora-se a cada passo. No contexto do NAVE Recife, há particularidades, como a precariedade de internet – alguns estudantes não têm computador em casa, ou as máquinas não são tão potentes para rodar os aplicativos. Para contornar tudo isso, estão sendo propostas atividades acessíveis para grande parte dos alunos, como os próprios educandos ensinando aos responsáveis sobre algum tipo de tecnologia: como enviar uma foto por WhatsApp, postar algo no Instagram, como encaminhar um e-mail, enfim, utilizando suas próprias ferramentas. Os relatos foram bastante interessantes, já que conheceram a limitação dos responsáveis. E, através desta limitação, conseguiram passar uma estratégia para ensinar esta tecnologia. É o aprender ensinando.

8)O processo de avaliação

Como administrar o tempo dos estudantes para compreender a particularidade de cada um deles? Toda aula está sendo avaliada, com a participação dos estudantes. Acontece, às vezes, numa turma, de um aluno, ou por questões pessoais ou pela própria timidez, ter receio em participar. Mas aí vai depender também do próprio professor contornar a situação. Ainda não se sabe como será a questão do fechamento do semestre, mas o retorno dos alunos é muito importante para a pontuação. Que seja uma volta calma, de pé no chão, de acolhimento. Em meio a esse gigante desafio, há coisas muito bonitas aparecendo. Trabalhamos tanto esta ideia de uma escola que reconhece com clareza seu estudante, seus saberes e desafios, que valoriza o coletivo e a colaboração, que atua numa parceria com famílias, e aí a gente vê que, num momento de crise, esses valores é que mostram toda a sua potência. É importante flexibilizar e reconhecer o que os estudantes estão conseguindo. Há aqueles até que se antecipam. Toda vez que se fica totalmente centrado no conteúdo, a gente desumaniza a escola. Estamos num momento difícil, mas o intuito de fazer com que a escola fique presente de forma significativa permite descobrir caminhos de resistência para fazer da Educação um instrumento de uma sociedade que a gente quer. Essa sociedade sólida, onde cabe todo mundo.

9)É possível repensar o papel da escola?

Vivemos uma crise que denuncia o esgotamento de um modelo social, econômico, ambiental, e precisamos reconhecer isso. E se tem um lugar que pode contribuir com a transformação desse contexto é a escola. Ela não vai fazer esse processo sozinha. Tem que ser uma tarefa coletiva, de uma sociedade. Mas, se colocarmos a escola e o processo educativo a serviço da transformação, da inclusão, com certeza, os educadores darão uma contribuição muito relevante. É um momento de reflexão, de repensar não só a escola, como direção, professores, coordenadores, mas, também, na família e no lugar que a família coloca a escola na vida de seus filhos, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio e, especialmente, da parte das Secretarias de Educação e do Ministério da Educação com essa cobrança maciça conteudista. E além disso, mostrar que a escola precisa ser mais humanizada, em termos de igualdade e inclusão, feita por seres humanos e para seres humanos. Que a comunidade e a família se preocupem mais com os outros. E o que se perdeu na escola, com toda esta comercialização, seja reconquistado: o amor.

10)O professor faz a diferença

O filósofo norte-americano Jonh Dill, uma referência na Educação, diz “que a democracia e a escola pública precisam ter uma relação íntima. Se a nossa escola pública puder se constituir como um microcosmo da sociedade que a gente quer, ela pode transformar o país”. Se pudermos trazer para a escola esse espírito que é da democracia para o cotidiano das nossas escolas, isso muda o país. E quanto aos professores? Eles não são super heróis, não sabem tudo, também estão neste barco de muitas angústias e de muitas incertezas, mas são eles que irão fazer uma diferença para os jovens e futuros profissionais.

 

O Especial Práticas Inovadoras para o Ensino Médio está disponível neste link:

Você pode conferir a íntegra do encontro online sobre o tema “Educação Integral – Práticas Inovadoras para o Ensino Médio” aqui.

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