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Papo de Futuro: Uma história de amor com a Educação

20/10/2020

Papo de Futuro: Uma história de amor com a Educação

Uma jornada cheia de desafios, onde eles transformam suas práticas educacionais para dar continuidade a um direito fundamental de todos: a Educação. Nesta edição especial do Papo de Futuro, em comemoração ao “Dia dos Professores”, duas profissionais contam suas histórias e debatem o protagonismo diante do isolamento social e do ensino remoto: Daniela Bahia, professora de Biologia da rede pública do Rio de Janeiro e no CE José Leite Lopes – NAVE Rio, e Gina Vieira, professora da Educação Básica da rede pública de Brasília. A mediação foi de Fábio Meirelles, coordenador de Educação do Oi Futuro, que exibiu, logo no início, um vídeo, em homenagem à data, 15 de outubro, lançado nas redes sociais. O Papo de Futuro é transmitido pelo canal do Instituto no Youtube, com acessibilidade em Libras.

“Aprender com nossos pares as dores e as vitórias tem sido um aprendizado muito grande”, diz Daniela Bahia. “Aos oito anos de idade, no colo da professora Creusa, tomei a decisão mais importante da minha vida, e disse para mim mesmo: não quero ser invisível; eu quero ser professora”, relata Gina Vieira.

Confira abaixo outras dez reflexões de Daniela Bahia e Gina Vieira:

1)Mudou a minha história

“Aprender a ser professora sempre começa com outro professor. Entrei para Ciências Biológicas na Universidade Rural e, quando tive Didática e Prática de Ensino de Biologia com o professor Bruno, eu me encantei”, conta Daniela Bahia. A princípio, ficou na dúvida, mas começar a dar aula e o contato com os alunos “muda a nossa história”, acrescenta. Entrou para o Estado em 1998, passou por poucas escolas, onde deixa saudades e, hoje leciona no Colégio Estadual Compositor Manaceia, em Madureira, e no NAVE Rio.

2)Porque decidi ser professora

Professora da Educação Básica há 29 anos, Gina Vieira é filha de Seu Moisés e Dona Djanira, dois apaixonados pela Educação, apesar de terem tido negado o seu direito aos estudos. Foi a partir do contato com a professora Creusa Pereira dos Santos Lima, que tudo começou, e a quem ela muito agradece. “Ela me inspirou e me ajudou a construir a ideia do que realmente é a Educação”.

3)Os modelos de “Célula Comestível”

Daniela, conhecida carinhosamente como Dani, fala sobre os desafios encontrados na cadeira de Biologia. Um deles é a ausência de microscópio. No NAVE Rio,  ela implantou um projeto para produzir modelos desse equipamento, utilizando um material que não gerasse mais lixo, e que pudesse ser dissipado mais rapidamente sem ocupar espaço no almoxarifado. Assim surgiram os modelos de “célula comestível”, em que os alunos, com aulas no refeitório, têm liberdade para estudar uma célula, realizam um planejamento e, em seguida, criam, de forma colaborativa. Após exibir um vídeo sobre o projeto, de 2015, Dani detalha o passo a passo da prática: “Começa com uma aula sobre o método de estudos da célula. Depois, através do aplicativo Pinterest, os estudantes reconhecem as imagens reais. A partir daí, escolhem o tipo celular com que irão trabalhar. Pode ser um neurônio, uma fibra muscular, uma célula vegetal, um macrófago. Estudam como será utilizada aquela estrutura pesquisada, e o aproveitamento dos alimentos que irão representá-la. É fundamental que os custos não sejam altos. Há um seminário final, no qual cada equipe apresenta para a turma o resultado de sua pesquisa, compartilhando também com os demais professores”. Um aspecto de suma importância é a colaboração entre todos os alunos envolvidos, durante as quase seis semanas de duração do projeto.

4)A prática “Mulheres Inspiradoras”

Como surgiu o premiado projeto, que acabou ganhando o mundo? Vemos uma foto da menina Gina, quando entrou para a escola, curiosa, animada, cheia de vontade de aprender. Um ano depois, uma nova foto da menina Gina, com a expressão bem mais triste, silenciosa, assustada, demonstrando um aspecto que ela já conhecia: o racismo. Até que ela encontra a querida professora Creusa, que tinha a fama de ser brava. “Um belo dia, eu estava na segunda série, não tinha aprendido a ler e a escrever, imaginei que fosse levar uma bronca, e descubro que ela quer me colocar no colo. E isso foi um divisor de águas na minha vida. Aos oito anos de idade, no colo da professora Creusa, ela me deu a chance de ressignificar a percepção que eu tinha de mim mesmo e, o mais importante, ela me deu um sonho para abraçar. Aos 17 anos, me tornei professora. Em 2003, tive uma forte depressão. Tentava dar aula e via que os alunos não se envolviam”. Gina começou a prestar a atenção nas redes sociais para mudar a sua prática pedagógica. Aprendeu sobre “Sexting” (divulgação de conteúdos eróticos e sensuais através de celulares), e entendeu que essa prática está relacionada a tecnologias de gênero. Daí surgiu o projeto “Mulheres Inspiradoras”, quando foram propostas leituras de obras escritas por mulheres e um estudo de biografias de dez grandes mulheres, como Cora Coralina e Rosa Park. Na etapa final, os estudantes refletiram sobre mulheres inspiradoras de suas vidas, através de entrevistas transcritas em um texto autoral. Neste material, que foi transformado em livro em 2016, os alunos contam histórias emocionantes sobre suas mães, avós e bisavós. Além de diversas premiações no Brasil, “Mulheres Inspiradoras” ganhou o Prêmio Iberoamericano de Educação em Direitos Humanos, equivalente a 20 mil dólares, e acabou se tornando política pública no Distrito Federal, presente em 40 escolas. Trinta e quatro anos depois, Gina encontra a professora Creusa, e pergunta: Por que você me enxergou? E a mestra responde: “Eu via uma criança que queria aprender”.

5)Esforço em conjunto

Durante a pandemia, a relação com a gestão precisou ficar muito próxima, para que as nossas dúvidas e angústias pudessem ser minimizadas, observa Dani, lembrando que o apoio dos colegas foi fundamental para a troca de experiências neste período. Enfrentar os desafios de forma solitária é algo inviável. Temos que procurar soluções junto aos outros, incluindo também, os grupos de pesquisa fora da escola.

6)A desigualdade social

Enfrentamos um momento histórico, crítico, avalia Gina. “Percebo que a pandemia provocou um desvelamento ainda maior das nossas desigualdades sociais. Um estudo aponta que o número de estudantes negros e indígenas que acessam os meios tecnológicos no contexto do ensino remoto é cinco vezes menor do que os estudantes brancos. Precisamos lembrar que o Brasil é um país profundamente desigual e que deixou de ser escravocrata há apenas 130 anos. No momento em que vivemos, a Educação foi profundamente impactada. Temos dificuldade para chegar nas crianças em condição de vulnerabilidade”. Gina cita uma fala do professor Antonio Nava, da Universidade de Lisboa: “Se continuarmos insistindo numa Educação apartada das novas tecnologias, vamos preparar os estudantes para um mundo que não existe mais”.

7)A importância da vida acadêmica

“O que ajuda meu coração na questão emocional é o conhecimento”, reconhece Dani. Segundo ela, que concluiu o mestrado em 2019, os inúmeros eventos que estão acontecendo atualmente, como festivais e webinars,  vêm contribuindo para a capacitação dos professores. “Voltar para a sala de aula no papel de aluna é algo que eu amo fazer, bem como estar junto aos colegas”. Gina acrescenta: “Nesta sociedade de consumo, há um perigo muito grande de esquecer que a questão primeira do conhecimento está em relação ao quanto ele pode nos dar combustível para entender a nossa existência no mundo e elaborar os nossos conflitos internos. Talvez, a pior tragédia na vida de um profissional de Educação seja parar de estudar”.

8)Mensagens de incentivo

Para Dani, a escola não está só relacionada a um diploma no final do curso. Essa experiência vai muito além do que está no livro. O que é  uma culminância de projetos na escola? Enxergá-la viva. E eu digo aos meus alunos: “Não desista! Juntos, vamos fazer a diferença! Podemos usar essa trajetória menos ácida e mais colorida”. Gina endossa as palavras de Dani e traz uma reflexão para os professores: “Antes de investigarmos porque os estudantes estão desanimados, precisamos levantar a origem disso. Às vezes, o aluno está evadindo do processo pedagógico no contexto da pandemia porque as vidas que foram mais precarizadas são justamente as das pessoas que não têm emprego formal. E o papel de nós, professores, é ainda maior. Educar é manter vínculo. Dizer: você não está sozinho”.

9)O  futuro da Educação

Vejo um futuro coletivo, prevê Dani. “Hoje, temos algumas profissões que não irão existir daqui a cinco anos. Então, é preciso trabalhar todas as habilidades socioemocionais incluídas neste percurso, de modo a permitir que o estudante vá para onde quiser e alcance voos. Importam as questões que envolvem o respeito à diversidade, à inclusão. “Não tem sentido pensar no ensino e na aprendizagem sem pensar na produtividade”. Gina faz referência a uma entrevista do professor César Nunes, da Unicamp: “A escola que deve nascer dessas cinzas da pandemia é uma escola crítica, sustentável, humana, amorosa, competente e comprometida com as infâncias e adolescências”. E ela vai além: “precisa ser uma escola antisexista, antirracista, antiLGBTfóbica”.

10)A valorização do profissional

Quarenta e oito por cento dos nossos professores já foram agredidos, relata Dani. Hoje mesmo, eu recebi muito carinho. Entretanto, gostaria que esse carinho não partisse apenas dos meus alunos, mas de toda a sociedade, que se refletisse nas políticas públicas, e que os profissionais fossem mais valorizados. Gina finaliza com os versos do poema “Professor”, de Fabrício Carpinejar:

“Um professor sempre será melhor que o Google.

Porque o professor não dá uma informação, conta histórias.

Porque o professor funciona mesmo sem Wi-Fi, mesmo sem luz, mesmo no temporal.

Porque o professor não facilita a busca, exercita a memória”………

 

Você pode conferir a íntegra do encontro online em comemoração ao “Dia dos Professores” aqui.

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