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“As mulheres negras têm papel determinante na formação cultural do Brasil”

20/11/2022

“As mulheres negras têm papel determinante na formação cultural do Brasil”

Dia 19 é o Dia do Empreendedorismo Feminino, seguido pelo Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro. Como essas duas datas estão relacionadas?

Pesquisa do Sebrae mostra que o número de mulheres à frente de negócios no Brasil já soma 10,1 milhões, mas a participação delas no universo de empreendedores no país é de apenas 34%. A mesma pesquisa revela que em 2021, com a pandemia, houve uma redução no número de mulheres negras no mercado empreendedor – elas eram 50,3% das donas de negócio, em 2019, e foram as principais atingidas, diminuindo sua participação para 48,5% no ano passado. Já as mulheres brancas passaram de 48,4% das donas de negócio para 49,9%.

“Existe uma desigualdade estrutural histórica quando se fala do acesso de mulheres negras a qualquer tipo de oportunidade. Desde sempre as mulheres negras brasileiras têm uma história atrelada ao empreendedorismo. Elas vendiam quitutes e empreendiam pela sobrevivência, literalmente. Inclusive comprando a liberdade, pagando pela própria alforria e de outras pessoas, montando espaços de empreendedorismo para ter um direito fundamental à liberdade e sustentar suas famílias. O que temos visto hoje ainda é, em sua maioria, um empreendedorismo que é por necessidade. Nós precisamos empreender por oportunidade, e para isso precisamos ter acesso às oportunidades’, defende Jaqueline Fernandes, idealizadora e fundadora do Festival Latinidades, que tem apoio cultural do Oi Futuro, através da Lei de Incentivo à Cultura do Distrito Federal.

A partir da experiência do festival, Jaqueline criou o Instituto Afrolatinas e o Casa Afrolatinas, que desenvolve ações transversais no mundo da arte, cultura e educomunicação, como pilares para o desenvolvimento humano, social e econômico: “o movimento de mulheres negras tem protagonizado os rumos das transformações sociais que o Brasil e o mundo têm vivido. Desde sempre as mulheres negras foram responsáveis por grandes avanços e contribuições pra humanidade, mas em função do processo de colonização e do racismo e da combinação de racismo com machismo estrutural essas contribuições não são reconhecidas”, afirma Jaqueline.

Confira abaixo a entrevista completa que Jaqueline deu para o site do Oi Futuro:

Quais os desafios do empreendedorismo e o que ele significa dentro da perspectiva do trabalho para as mulheres negras?

JAQUELINE: No que diz respeito ao empreendedorismo, as mulheres negras são as primeiras empreendedoras do Brasil. Elas vendiam quitutes e empreendiam pela sobrevivência, literalmente. Inclusive comprando a liberdade, pagando pela própria alforria e de outras pessoas, montando espaços de empreendedorismo para ter um direito fundamental à liberdade e sustentar suas famílias.  Desde sempre as mulheres negras brasileiras têm uma história atrelada ao empreendedorismo. E um empreendedorismo que é anticolonial, que é decolonial, que por si só nasce como forma de sobreviver ao racismo sistêmico e à negação da presença negra no Brasil. O empreendedorismo negro tem as mulheres como principais agentes e isso deve ser ao mesmo tempo celebrado e denunciado, porque empreender não pode ser algo como “se vire aí”. É preciso ter políticas públicas para empreender, políticas afirmativas para o empreendedorismo feminino tendo em vista que existe, sim, uma desigualdade histórica estrutural quando se fala do acesso de mulheres negras à qualquer tipo de oportunidade.

E como isso se desdobra quando falamos de mulheres negras no mundo da cultura e da arte?

A cultura e as artes são esse espaço que dialoga de forma transversal e que mexe com imaginários, move pessoas, futuros e construções que talvez outras linguagens e pautas não conseguem mover de forma tão orgânica.  As mulheres negras têm papel determinante no que se considera cultura, na formação cultural do Brasil. E aqui falando em cultura de uma forma mais ampla, mas também de manifestações culturais e uma cadeia produtiva de arte e cultura onde a mulher negra ainda é invisibilizada, não reconhecida e é mal remunerada. Elas estão em posições historicamente subalternizadas – é difícil ver mulheres negras à frente de grandes produções, festivais, espaços de decisão e curadoria e isso se reflete de uma forma desastrosa na falta de diversidade que a gente vê tanto no backstage quanto em cima dos palcos.

Se formos fazer uma análise profunda da presença das mulheres negras nos grandes eventos e produções artísticas e culturais, vamos ver as mulheres na limpeza e os homens como seguranças. Poucas vezes as veremos em posição de coordenação e decisão, de incidência direta em programação e macro-decisões. É preciso ter uma revolução dentro da cadeira produtiva cultural visando a equidade e assumir que a cultura é estratégica para promover a equidade racial. É preciso ficar atento a essa cadeia produtiva e admitir que ela reflete as desigualdades estruturais da sociedade, é uma cadeia que não é inclusiva com as mulheres e que ainda está distante de incluir as mulheres negras com dignidade.

Como as empresas e instituições podem ser aliadas na construção de um mundo do trabalho mais justo e igualitário para as mulheres e empreendedoras negras?

JAQUELINE: Está na hora da mulher, e especialmente da mulher negra, empreender não por necessidade, mas por oportunidade. E  para isso precisamos ter acesso às oportunidades, para alcançarmos o que historicamente não nos foi permitido.

É preciso que as empresas, inclusive as que patrocinam eventos, olhem para produções de mulheres negras. As pessoas negras representam 54% da população brasileira e em vários estados esse número chega a 60%, 80%. É  impossível ignorar os negros e negras em todas as esferas, e na arte e na cultura não é diferente. Esse campo tem potencial de transformação de imaginários e fortalecimento de identidades. Para que isso aconteça é preciso um trabalho para revolver as estruturas discriminatórias que existem na sociedade há mais de 500 anos e que não podem ser combatidas só com slogans, só no 20 de novembro. Empresas, as instituições e a sociedade precisam de assumir um compromisso com a transformação real. Tenho visto com muita alegria empresas que já têm criado programas e editais específicos para promoção da equidade não só para processos de contratação, mas também para investimento em ideias, iniciativas e projetos de pessoas negras. Esse é o caminho.

Em 2007, você criou o Festival Latinidades, que acabou se desdobrando em outras frentes, como o Instituto e a Casa Afrolatinas. Qual é a importância das redes colaborativas para o fortalecimento das mulheres e a geração de oportunidades?

O Latinidades surgiu em um momento de muita indignação pessoal, por viver em Brasília, a capital federal onde 58% da população é negra, mas a produção cultural e intelectual de pessoas negras, sobretudo de mulheres negras, era totalmente sub-representada nas iniciativas da cidade. Isso me moveu a criar o Festival Latinidades, que no início pensava ser uma vitrine para a produção local. Mas rapidamente a gente percebeu da importância de popularizar e mobilizar os movimentos sociais, a mídia e a sociedade em geral em torno do dia 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, que é o verdadeiro 8 de março das mulheres negras, uma data com significado de luta para nós. A gente começou a fazer esse esforço coletivo de ampliar redes, articular mulheres e organizações e ampliar e amplificar essa data, que chama a atenção para a situação da mulher negra. E a gente foi crescendo muito em função da força do movimento articulado de mulheres negras no Brasil e na América Latina.

A nossa força é coletiva e a cultura é um palco estratégico para a nossa luta, uma voz potente. Há anos trabalho com a promoção da equidade racial e de gênero por meio das artes e da cultura, que considero um espaço  mobilizador e formador para inclusão de mulheres negras, o que significará uma mudança estrutural na vida não só delas, mas da sociedade em geral. Porque não há como uma sociedade se desenvolver deixando para trás a maior parte dela.

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