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Papo de Futuro: A arte que transforma e inclui

28/09/2020

Papo de Futuro: A arte que transforma e inclui

Nesta edição do Papo de Futuro, sobre o tema “Arte e Acessibilidades”, recebemos Bruno Ramos, ator, poeta, educador e professor de Libras, e Clara Kutner, bailarina, diretora e criadora da instalação “SOM”. Os dois convidados falam de iniciativas que desenvolvem linguagens para promover acessibilidade, atendendo a diversidade da comunidade surda, públicos que o Oi Futuro se relaciona diretamente através de sua programação e ações educativas. A mediação foi de Rafaela Zanete, gestora cultural da Coeficiente Artístico e responsável pelas atividades do Programa Educativo do Oi Futuro. O Papo de Futuro é transmitido pelo canal do Instituto no Youtube, com acessibilidade em Libras.

“Quando você tem uma pessoa surda lidando com um grupo de crianças, na verdade, você se torna um modelo implícito para aquelas crianças”, ressalta Bruno Ramos. “A instalação ‘SOM’ é um trabalho sobre a cultura surda, e não sobre a questão de tornar acessível uma obra”, explica Clara Kutner.

Confira abaixo outras dez reflexões de Bruno Ramos e Clara Kutner sobre o tema “Arte e Acessibilidades”.

1)Experiências e vivências como arte-educador

“Eu sou Bruno Ramos, tenho os cabelos crespos, estou de blusa amarela e uso um óculos preto. Sou negro, professor, ator e trabalho há muito tempo com arte”. Assim ele iniciou a conversa, destacando, logo de início, a importância de todos estarem conectados. Falou das performances realizadas e da sua trajetória na Educação Infantil, a partir da língua de sinais, e, especialmente, da interação com as crianças surdas. Durante a sua permanência junto ao Programa Educativo do Oi Futuro, realizou atividades, como oficinas e contação de histórias. A partir daquele momento, abriu-se um mundo de possibilidades para as acessibilidades. “Iam pessoas cegas, outras de cadeira de rodas, com surdez e, às vezes, alguns alunos do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), em Laranjeiras. E perguntavam: Mas, ele é surdo, como vai fazer? Vai ter intérprete? Conseguimos que todos se abrissem para aquela troca, com um sentimento de empatia. Eu me comunicava a partir da língua de sinais, e com meu corpo. A gente começava a quebrar esses tabus e abrir a questão da diversidade”, relata. Bruno lembra que a Libra é considerada uma língua, mas cada país tem a sua linguagem de sinais. Ele também participa de outras iniciativas, como “SOM, uma coreografia para surdos”, em conjunto com a diretora e bailarina Clara Kutner. “Que projeto maravilhoso! Fico pensando em como podemos trazer outras inovações para a sociedade. Temos muitas coisas para serem criadas. Como no cinema ou no teatro, as cadeiras vibrarem, além de inúmeras possibilidades da imagem”.

2)A perspectiva inclusiva

Bruno realizou, inicialmente, um trabalho junto ao Oi Futuro mais voltado para as visitas mediadas. Em 2018, essa ação foi revista e pensou-se numa relação não apenas com os surdos, mas, também, com os ouvintes, com deficientes, enfim, com um público diverso. Tudo através do diálogo, da troca, possibilitando a atuação dentro de uma perspectiva inclusiva. Neste cenário, destaca-se, também, o papel dos museus, como espaço de relevância nos tempos atuais. Bruno é graduado em Letras Libras (2011) e mestre em Estudos da Tradução, com pesquisa em “O Uso de Transferências em Narrativas Produzidas em Língua Brasileira de Sinas” (2016), pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Língua Brasileira de Sinais.

3)Acessibilidade em Movimento

Atriz, cineasta e bailarina, Clara Kutner vem desenvolvendo um importante trabalho com a dança flamenca junto a pessoas surdas, e foi uma das selecionadas no edital de residência do ArtSonica –  mostra de processos de pesquisa multilinguagens do Oi Futuro. Ela participou do Acessibilidade em Movimento, um ciclo de conversa e laboratório de experimentação acessíveis, realizado por diversos artistas e integrando inúmeras linguagens. Esse projeto marcou o primeiro contato da artista com o pensamento de arte e acessibilidade. “Aprendi muita coisa em dois anos, e senti que era uma grande responsabilidade falar de um assunto novo para mim, que é o contato com a pessoa surda. Fui entendendo que eu tinha que entrar naquele universo. Li a monografia do Bruno, fiz aula de Libras, estabeleci muitas parcerias com o INES, e passei a entender que tudo era um exercício de comunicação. Falar uma outra língua, falar com as mãos, ficar um tempo sem ouvir fala”. Em 2019, produziu a obra “SOM, Uma Coreografia Para Surdos”, que mescla arte e interatividade, em um projeto totalmente dedicado à inclusão e inovação. “Convidei pessoas interessantes, como a Georgia Câmara, professora da Anatomia da Angel Vianna, que construiu um esqueleto de fios e tecidos; Teresa Taquechel, coreógrafa e diretora da Pulsar Cia de Dança, com quem passei um ano no Teatro Cacilda Becker; e realizei uma oficina de teatro para artistas autistas, com minha irmã, Bel Kutner e o Fabrício Moser, professor do meu sobrinho”. Clara exibiu o vídeo sobre a instalação “SOM”, coreografada pelo bailarino cubano Miguel Alonso, onde ela dança e dirige. O vídeo conta com as valiosas explicações de Bruno, responsável, inclusive, pela criação de uma poesia surda. Clara explica: “O vídeo tem a música, mas na instalação, o ouvinte colocava o fone e sentia apenas a vibração”.

4)A cor da esperança

Clara faz, também, referência à oficina de dança flamenca que ela ministrou para surdos, e revela seu sinal, que é em forma de franja. Agora, ela se apresenta: “Sou morena, sombrancelha grossa, uso um brinco comprido e prateado, e estou de camisa verde, a cor da esperança. Esse assunto para mim é muito grato, principalmente, pelo momento em que estamos vivendo, de questões bastante sérias e de profunda reflexão. O trabalho me trouxe bons insights sobre o coletivo, e a ideia de que todo mundo é diferente. Sempre criamos um jeito de se comunicar”.

5)A relação com a comunidade surda em tempos digitais

Durante a pandemia, é preciso muita criatividade para lídar com o distanciamento, com esse trabalho remoto, observa Bruno. “Eu, por exemplo, estou em casa com a minha esposa – ambos professores de Libras – e meu filho, e precisamos combinar os horários, já que nossos familiares moram distante. No caso dos meus alunos, utilizo uma plataforma específica, que é o Moodle. Trinta por centro das atividades são trabalhadas de forma síncrona, e o restante de maneira assíncrona, com a possibilidade de os alunos discutirem e fazerem uso da leitura”. Claro que nem toda aula é igual e o número de participantes varia. No caso de um trabalho de Arte – Bruno ministra um curso de extensão –  é diferente. Ele utiliza também o Zoom para trocar informações ou o próprio e-mail. “É sempre um grande desafio”. Clara complementa: “As lives têm tido bastante acompanhamento. Durante a quarentena, fiz uma página com poemas e manifestos, e até chamei o Bruno, mas não estão acessíveis. Gravei os textos, sem legenda. Há muita estrada ainda. Quando me lembro da última eleição, vi a questão da comunidade surda como uma coisa assistencialista, com uma visão política. A inclusão é algo necessário, todos têm que ser incluídos”, ressalta.

6)Outras plataformas

Na faixa etária de 10 a 15 anos, Bruno opta pelas lives. “Trabalhamos em dupla a parte de gesticulação, conto histórias na língua de sinais e trago esses alunos para recontarem comigo”. Ele utiliza também o Instagram, o Facebook e os Stories.  Já como professor de da disciplina de Libras na Universidade Federal Fluminense (UFF), há mais possibilidades. Sem contar os inúmeros convites que vem recebendo para outros projetos.

7)A produção audiovisual para pessoas surdas

Clara, que assinou a direção da novela “Tapas e Beijos”, ao lado de Daniela Braga, agora em mais uma temporada na TV Globo, responde: “Tenho pensado nisso. Sinto que a televisão também passa por um momento de mudança e esses conteúdos são urgentes”. Ela conta que recebeu do Bruno a indicação de “Crisálida”, da Netflix, a primeira série de ficção em Libras e em português realizada no Brasil. “Lembro que na minha primeira aula de Libras, a professora exibiu um vídeo sobre uma mulher perdida na rua, pedindo informação. Ela se dirige a um guarda e fala sem ser entendida. Esse assunto é infinito. Precisamos melhorar a comunicação!”

8)O papel da arte na diversidade

“Não sei quantos conhecem o Leonardo Castilho, arte-educador no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) e autor do “Corposinalizante”, espaço de criação coletiva aberto a jovens que se interessam por Arte Contemporânea, Libras e Educação. Ele faz inúmeras provocações, e na sua Hashtag diz: “O surdo pode”, “O surdo é capaz”. Vai difundindo esses temas, que envolvem as acessibilidades. Não se confrontando umas contra as outras, mas, sim, se ajudando, e sempre sugerindo que as pessoas possam trabalhar em conjunto, a partir de movimentos artísticos”, ressalta Bruno,  exemplificando outras instituições que também usam a arte como viés de conexão, como o Itaú Cultural.

9)Abrindo frentes e quebrando barreiras

“Tudo isso serviu para me abrir muitas frentes”, reconhece Clara. Ela anunciou um trabalho, já em andamento, em continuação ao das Acessibilidades, mantendo a parceria com o Oi Futuro. “Estamos agora nesse estranho momento, mas hoje chega a primavera, e eu espero que traga coisas boas, que possamos trocar ideias e respirar mais juntos”. Bruno também agradeceu a oportunidade, e disse que se emocionou durante toda a fala. “Sabemos o quanto é difícil durante a pandemia, com toda a questão da discriminação contra a pessoa negra. Que a gente possa acabar com esses tabus e quebrar essas barreiras”.

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