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Papo de Futuro com Maria Luisa Passos: “Eu posso, nós podemos!”

27/09/2021

Papo de Futuro com Maria Luisa Passos: “Eu posso, nós podemos!”

Nesta edição da série Papo de Futuro, que conta com a curadoria da Diaspora.Black, abordamos o tema “Ancestralidade: o resgate de nossas raízes para uma sociedade mais justa”. Vamos refletir sobre esses elementos em nossos cotidianos, como inspiração para superar desafios e desconstruir estigmas a partir do conceito de “Sankofa”, que significa resistência e aprendizado com o passado. No mês do combate à discriminação racial e em que também celebramos o Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, convidamos a escritora, pedagoga e palestrante Maria Luísa Passos. A mediação é de Alan Nascimento, analista de Inovação Social do Oi Futuro. A série Papo de Futuro, organizada pelo Oi Futuro, é transmitida pelo canal do Instituto no Youtube, com acessibilidade em Libras. 

“O bloco afro e a religião de matriz africana são importantes por conta do leque que nos dá o acesso à musicalidade, à corporeidade, a revisitar esses conceitos que, muitas vezes, a Educação nos convidou a alijar essas nossas referências”, enfatiza Maria Luísa Passos. 

Confira abaixo dez reflexões de Maria Luísa Passos sobre o tema “Ancestralidade: o resgate de nossas raízes para uma sociedade mais justa”. 

Ilê Aiyê mudou a estética da mulher negra em Salvador  

Diretamente de capital baiana, Maria Luísa Passos usa um vestido com estampa africana, um tosso no cabelo e a amarração com as cores do arco-íris. Vinda de uma comunidade chamada Alto das Pombas, mora, atualmente, no Engenho Velho de Brotas. “Minhas memórias de vivência são extremamente afetivas. De cozinhar, das brincadeiras de roda, da fogueira de São João. Minha avó materna era uma mulher de religião de matriz africana, e na minha casa sempre teve caruru e celebração para Cosme e Damião. A relação da minha comunidade foi extremamente importante para o meu processo de construção de identidade durante a infância”, relata. Mais para a frente, já na adolescência, teve a relação com a cultura. O pai sempre foi ligado à música e Luísa o acompanhava nas rodas de samba e no próprio carnaval. Um marco significativo foi quando viu, pela primeira vez, na Avenida, o bloco Ilê Aiyê. “Era um bailado de mulheres lindas, com bocão e baton vermelho, coisas que durante a infância a gente era orientada a não usar. Foi uma ruptura de todos os paradigmas. E, assim, aos 15 anos, eu comecei a sair nesse bloco e estou nele até hoje”.  

Na trajetória, o Magistério 

Aos 12 anos Luísa pensava em ser advogada, mas o destino mudou. Em 1994, concluiu o curso de Magistério e, um ano depois, foi convidada para ser professora da Escola Aberta do Calabar, comunidade de grande referência na área da Educação, na cidade de Salvador. “Essa oportunidade também foi o norteador para a minha trajetória, enquanto educadora, enquanto educadora negra. Estudávamos Paulo Freire, os movimentos sociais. Já falávamos para os meninos de Zumbi, de Dandara, de Ganga Zumba”.  Daí, Luisa seguiu para o CEAFRO, organização de mulheres negras, que funcionava, na época, dentro da Universidade Federal da Bahia. “Nosso foco era uma Educação voltada para a diversidade étnico-racial e de gênero e, a partir daí, criei coragem para fazer vestibular. Entrei para Pedagogia, depois de dez anos de sala de aula, juntando a experiência com os conceitos. No CEAFRO, tivemos a oportunidade de iniciar a implementação da Lei 10.639, que prevê o ensino da História e da Cultura Afro-Brasileira no currículo da rede de ensino de Salvador e de Maragogipe, no Recôncavo”. 

“O amanhã será a África” (Achille Mbembe) 

Segundo o filósofo camaronês, daqui a uns trinta, sessenta anos, uma a cada três pessoas no planeta será africano ou descendente dessa diáspora. O futuro da humanidade está, realmente, na ancestralidade? Luísa responde: “Eu não tenho dúvida. Para mim, a ancestralidade sempre esteve, e no futuro estará, sim. Essa reflexão me leva, diretamente, para o caminho da Educação e para o caminho de um olhar sobre reparações. Estamos vivendo um mundo de muita intolerância, mas se respeitarem as nossas diversidades, os nossos valores, teremos um futuro mais humano. Houve um tempo que diziam que nós seríamos extintos, que seriamos raça degenerada, que nós não tínhamos habilidades e competências para desenvolver o intelecto. Hoje já temos como comprovar que nada disso é verdade. Reconhecem a nossa expertise nas áreas das Humanas e Exatas”. 

A Luísa escritora 

Na adolescência, ela sempre escreveu. “Sou uma pessoa que gosta de memórias. Uma vez teve uma atividade na escola de meu filho, onde a gente precisava contar sobre a história do nascimento dele. Redigi o texto, mostrei para o meu marido e ele disse que eu tinha habilidade para escrever contos. E isso foi um “start” para que eu seguisse. A Arte, a Educação, a Ciência, a Tecnologia e, também, o Afeto, são fundamentais. Esse meu olhar também para a música, eu gostar de cantar, foram referências que me levaram para esse lugar. Chegaram convites para que eu participasse de publicações e festivais”. Luísa mostrou algumas obras, como “Negras Inconfidências”, material organizado por Benilda Brito, do Instituto Odara, onde tem um conto publicado, além de “Outras Carolinas”, em homenagem à escritora Carolina Maria de Jesus, com duas de suas poesias, e também o livro “Sentimentos que ecoam”, uma experiência com a comunidade de Tinga, em Lauro de Freitas.   

Para construir um mundo melhor 

Uma escuta ativa, o estudo prévio de diagnóstico, de quem é esse sujeito, de onde ele vem, de suas referências, dos seus desejos, o olhar aguçado sobre suas potencialidades, trazer isso para a roda de uma forma coletiva, onde todas as pessoas envolvidas no processo de construção, de conhecimento, possam opinar, contribuir com seu saber, independente do seu grau de escolaridade. O valor de olhar para si e olhar para o outro. “Se esse movimento está implicado com uma cumplicidade coletiva, não tenho dúvida de que a gente vai atingir os objetivos que estão sendo propostos”, observa.  

A formação na ANBIMA 

Recentemente, Luísa teve uma experiência de três meses no processo formativo para jovens. “Matriculamos 70 deles e utilizamos o espaço da Universidade do Estado da Bahia, na sede do CEPAE (Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação). Foi extremamente gratificante para a minha vida profissional. Nosso objetivo era formar negros e negras, com foco no mercado financeiro, para atuar em bancos. Dos 70 jovens matriculados, ficamos com 61, com um índice de 74 por cento de aprovação na certificação CPA10 da AMBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro). Tudo com muito carinho. Primeiro porque é uma ruptura você olhar no olho da juventude e dizer: ‘Você pode acessar aquele espaço de emprego’, ‘Você tem habilidade e competência para ser gerente, para ser agente de crédito’, ‘As pessoas que acessam o banco terão confiança em você’, relatou.  

Nós chegamos lá! 

Queremos chegar sem tanta dor, sem tanto sacrifício. A gente quer poder chegar com as condições objetivas adequadas. Porque para nós, negras e negros, a competência técnica só não basta. A gente precisa ter uma energia ancestral, uma autoconfiança cotidiana, que a gente olhe no espelho e diga: “Eu posso”.  Porque não basta só o outro me dizer que eu posso. Eu preciso instituir dentro de mim que eu posso, que eu consigo. Eu posso, nós podemos, nós somos capazes! 

Enfrentamento epistemológico 

Uma estudante foi impedida de acessar a escola pelo fato de portar as Jóias do seu Orixá. Que Estado laico é esse? “Temos que arregaçar as mangas e continuar no enfrentamento. Para combater essa invisibilidade, é necessário promover ações dessa ruptura. Acompanhei esse caso nos boletins de noticiários. Existem marcos legais e precisamos fazer valer as leis. Penso que órgãos como os Fóruns de Entidades Negras  e os Núcleos de Religiões de Matriz Africana estão aí na luta, e essa luta deve ser permanente. Essa escola precisa ser encaminhada a partir dos marcos legais, mas, paralelo a isso, o currículo também precisa dar conta de uma Educação onde a gente trate da religião no contexto escolar, de uma forma respeitosa, porque na medida em que isso aconteça, não vai ser estranho que uma jovem acesse o espaço da escola com suas joias”.  

O futuro é da mulher negra 

“Sem dúvida, existe um futuro brilhante para nós, mulheres negras”, reconhece Luísa. Desde os anos setenta para cá, desde todo o processo de articulação dos movimentos sociais negros, tem havido inúmeras articulações. A Marcha das Mulheres Negras vem dando um banho de enfrentamento. Mesmo não tendo acontecido presencial em 2020 e em 2021, quando se chega na rede você tem articulação de mulheres negras de vários locais do país, articulações internacionais, inclusive. O estar no coletivo. O coletivo de mulheres negras de matriz africana, coletivo de mulheres negras de educadoras, coletivo de mulheres negras de grupos sociais. Eles estão aí, o tempo inteiro dizendo não ao machismo, não aos menores salários, não à dupla jornada de trabalho, não aos desrespeitos, não à violência doméstica, não ao feminicídio.  

O que você espera? 

“Tudo de maravilhoso. Que a gente possa continuar andando com a nossa cabeça erguida, que a gente consiga ter relações mais justas, mais dignas. Que a juventude negra tenha a oportunidade de fazer ecoar todo o seu brilhantismo, todas as suas habilidades, todas as suas competências, todo o seu ânimo. Nós sabemos que é possível. Que a juventude negra tenha a oportunidade de acessar espaços de vida, de energia vital, de amor, de afeto. Que a gente não precise continuar tendo números alarmantes de genocídio, de feminicídio. Espero poder sair de casa com meu balaio para colocar no dique para o meu Orixá, sem precisar ouvir piadas ou caras e bocas. Poder continuar andando com a dignidade que a minha ancestralidade vem me regendo. E que a Educação continue sendo esse instrumento de transformação”. 

Você pode conferir a íntegra do encontro online sobre o tema “Ancestralidade: o resgate de nossa raízes para uma sociedade mais justa” aqui.

 

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