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Papo de Futuro: Festival Multiplicidade – “O que eu quero ainda não tem nome”

22/10/2020

Papo de Futuro: Festival Multiplicidade – “O que eu quero ainda não tem nome”

Nascido no Centro Cultural Oi Futuro, o Festival Multiplicidade chega à sua 16ª edição. O evento, que une imagem e música, a partir da tecnologia, é celebrado neste Papo de Futuro Especial, com o tema “Festival Multiplicidade: O que eu quero ainda não tem nome”. Participam dois integrantes do BaianaSystem, banda que há um ano abriu o Festival com um show no Circo Voador, reunindo cinco mil pessoas: Filipe Cartaxo, artista visual e diretor artístico, e Russo Passapusso, cantor e compositor. A mediação é de Batman Zavareze, artista visual, curador e diretor do Festival Multiplicidade. A série Papo de Futuro, organizada pelo Oi Futuro, é transmitida pelo canal do Instituto no Youtube, com acessibilidade em Libras. Após o encontro, foi lançado, no Facebook,  o livro-experiência do Multiplicidade, o décimo-segundo ao longo da trajetória do Festival.

“Os estímulos não vêm só das composições. Saindo desta esfera da música, que tem a Egotrip, você se desapega deste campo de visão porque o Baiana não tem apego com a imediaticidade”, explica Russo Passapusso. “Falar de nostalgia do futuro é um pouco desse resgate, sem o cunho da palavra resgate”, ressalta Filipe Cartaxo.

Confira abaixo outras dez reflexões de Filipe Cartaxo e Russo Passapusso sobre o tema “Festival Multiplicidade: O que eu quero ainda não tem nome”.

1)Salve, salve, BaianaSystem

“Estamos aqui, sou Russo Passapusso, e fazer parte desta troca de ideias para mim é como se fosse um marco”, diz o cantor e compositor do BaianaSystem. “Só alegria, só fé, vamos nessa”. Tanto ele, como Filipe Cartaxo, o diretor artístico da banda, se lembram das primeiras conversas que culminariam com o aclamado show realizado no dia 27 de setembro de 2019, no Circo Voador, dentro das comemorações dos 15 anos do Multiplicidade. “Quando começamos a entender as motivações do Festival, com o tema Brasis, mas de cabeça para baixo, era um período intenso e soava como um manifesto. O fato de pautar, inicialmente, a partir da arte visual e não musical, foi bem inédito”.

2)A importância da imagem

“Tenho uma relação do Baiana com a imagem, partindo do centro da cidade. Foi quando eu estava mergulhado no Pelourinho, e esse momento veio em visualização musical, imagético. Foi quando eu recebi toda a informação do Cartaxo. A própria imagem da guitarra baiana”, lembra Russo. Outro marco foi quando eles viajaram para Xangai, na China, onde Russo percebeu um novo conceito de imagem. “Lá que eu vi a máscara” (a identidade visual da banda, criada por Cartaxo), e quando a colocaram como símbolo ancestral,  isso transformou a minha cabeça. Sair de Salvador foi muito importante para entender a força da imagem no contexto do BaianaSystem. Vivemos a experiência do laboratório das músicas e dos shows em três times: o que a gente sofre, através das imagens das expressões de Cartaxo; o que passa para o público; e, depois, essa imagem se transformando, se personificando e virando invisível, o ‘Caboclo do Capim Guiné’ (canto de celebração em que a banda revolve a raiz africana). Nada era racionalizado, conscientizado. Foram dez anos para saber o que estava acontecendo, e acabamos entendendo isso no Multiplicidade”, conta Russo.

3)Inventando os novos espaços

“O fato de eu estar dentro do processo, acabo utilizando como objeto de estudo. No final das contas, é um privilégio um artista visual fazer parte de um grupo musical. De alguma forma, a criação acaba tendo a participação de todos os envolvidos. Eu não assumo esse papel. Tudo o que a gente vive não sou eu. Só faço traduzir aquilo que estamos vivenciando. Como isso é quase instantâneo, nos ajuda a falar coletivamente”, observa Cartaxo. Em relação aos desafios, ele acrescenta: “Dentro desta pandemia, quando cessaram os shows, a gente intensificou o trabalho da própria ‘Máquina de Louco’ (selo da banda), Seria o nosso laboratório, a parte do Baiana fora show.

4)O impacto das máscaras

Russo diz que demorou muito tempo para entender a linguagem de Cartaxo; foi um processo terapêutico, até de desapropriação. “Eu, que sempre andei com grafiteiro, via a galera pegando uma coisa na rua e transformando em algo que eu não imaginava. E isso para mim foi uma relação de entendimento total por causa do simbólico. Interagiu muito com meu processo de composição. A primeira ideia é que, de repente, eu estava adorando aquela máscara. Depois, quando fui para o Japão e a China, via a relação simbólica, o não-lugar, a não-pessoa, a libertação, não tem cor, não tem cara. E, quando você sai de toda esta relação para ter um ponto de vista diferente, aí começa a ter medo. Ao sentir todo esse peso, pensei: O que o Cartaxo está fazendo com a gente? O que as imagens estão fazendo com a gente e o que nós estamos fazendo com as músicas? Foram muitos anos para eu compreender a máscara. A lembrança que eu tinha era de uma foto das máscaras no chão, pisadas”. Cartaxo, por sua vez, se recorda de um show no Rock in Rio, quando proibiram a distribuição das máscaras.

5)Uma experiência sonora, visual e reflexiva

Cartaxo se refere ao show com o Multiplicidade, em 2019, e fala do espaço expositivo do palco. Pelo próprio tema do Festival, foi o melhor momento para expor um pouco do que era a cabeça da banda.  Ele lembra que esta experiência aconteceu muito em cima do BNegão, parceiro do Baiana desde sempre, que já havia feito um recorte para eles, há alguns anos, na época do “Duas Cidades”, segundo álbum do grupo. Foi uma experiência sonora, visual e reflexíva. “O visual e o sonoro são rapidamente identificáveis, e o reflexível é o que tem mais abrangências, trazendo nossas questões internas e tentando dividir um pouco nossas cabeças. O Baiana sempre foi visto pela força do audiovisual, das telas, pela supertecnologia”.

6)As influências da linguagem musical

Ao ser perguntado se um grupo de rock eletrônico, como o alemão Kraftwerk, influencia o Baiana de alguma forma, Cartaxo responde: “Essa banda, por ter um visual muito forte, acaba impactando. Tem um single que a gente lançou, que é uma alusão absolutamente direta a ela. Mas, isso se distancia no sentido da matriz. Nossas referências são muito relacionadas ao Carnaval e diretamente ligadas às Festas de Largo, com a questão das pinturas e das barracas, que eram feitas à mão pelo próprio dono. Tudo isso nos ajuda a reforçar esses símbolos. Colocar outros valores ali dentro que não são os nossos”.

7)O momento mais marcante

Russo lembra do sofrimento do Carnaval. Quando não consegue comunicar, quando o trio está empacado, quando a multidão está incontrolável. Quando entra a violência e o som vai se multplicando. “Isso é muito marcante, ali, você só pode fazer suas orações e deixar que a música consiga conduzir. E aí rola um momento explosivo. A galera em cima dos isopôs de cerveja, pessoas fazendo malabares de fogo. Um negócio de louco”! Com a multidão em uma espécie de transe, o “Só Amor” surge desta súplica, e a frase é repetida como um mantra, de cima do trio, pelo vocalista do Baiana. Entre os muitos códigos que transpassavam o racional, ele pediu que as pessoas batessem palmas, o que deixou os policiais constrangidos. Para Cartaxo, o momento mágico envolveu duas situações específicas, ambas chamadas ‘Mateus’. “Primeiro, uma criança de nove anos que se perdeu no meio de toda aquela loucura, e nós conseguimos identificá-la. Um pouco adiante, também durante o show, veio um jovem de cadeira de rodas, e todo mundo levantou-o. Eu estava filmando, e quando o Russo perguntou qual é o seu nome, ele respondeu: Mateus. Parece que o Carnaval aconteceu para aquilo acontecer”.

8)O encontro com gerações diferentes

“Hoje eu acordei e me emocionei muito vendo as coisas de Lourimbau (um dos principais representantes na arte de fazer e tocar berimbau na Bahia). “Ele é extremamente afrofuturista. Isso é um golpe para a gente não entender a ancestralidade. O que tem no nosso Instagram é a nossa pesquisa de campo, o nosso show ao vivo. Quando fomos colocados dentro da quarentena, perguntamos: E agora, cadê a pesquisa? Pessoas como o Bira (maestro Bira Marques), são uma fonte inesgotável de criação e de recriação”. Filipe acrescenta: “Esse futuro está sempre presente ou está no passado. Lourimbau é super presente, Antonio Carlos e Jocafi e Bule-Bule estão sempre presentes.  Enfim, se fazer presente pela sua história”.  

9)“O que eu quero ainda não tem nome”. Como bateu na gente

A frase, tirada de um texto de Clarice Lispector dos anos 1980, e título do livro-referência do Festival Multiplicidade, traz reflexões para o BaianaSystem. “Isso está acontecendo com todos nós. Em tempos de tanto verbo, tanta palavra, tanta legenda e definição, tanta transformação de comportamento, quero me expressar da forma mais verdadeira possível e, às vezes, as palavras estão tão cheias de armadilhas, que esse lugar para mim foi uma interrogação de satisfação. E a primeira coisa que me bateu foi a fe”, reflete Russo. Cartaxo lembra que antes do livro, Batman havia compartilhado com ele a imagem de um drone, em algum lugar do Rio de Janeiro, que passava pela cidade vazia, e tinha justamente esta frase projetada em um prédio. “Para mim, a frase, melhor do que uma pergunta, é uma resposta. Me senti confortável pelo lugar de discussão, pelo lugar de se procurar saber”.

10)Os futuros do futuro

“Estamos em processo de formação, e o BaianaSystem está produzindo muito. Vejo tudo com um ar de muita continuidade. A ponte entre o Multiplicidade até chegar aqui tem uma enorme importância. Força, resistência, esperança, alegria, de cabeça levantada. Quero a energia desta forma, e a desconstrução. Estamos nos entregando para novas criações. O meu futuro é agora”, enfatiza Russo. Cartaxo agradece a oportunidade por estar neste encontro e finaliza: “Ser pautado pela questão visual nos ajuda a entender a força simbólica, não especificamente do Baiana em si, mas de tudo o que está aí, do próprio livro. E sucesso para o que se propõe o Multiplicidade esse ano, com um tema maravilhoso”.

Você pode conferir a íntegra do encontro online sobre o tema “Festival Multiplicidade: O que eu quero ainda não tem nome” aqui.

 

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