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Papo de Futuro: o consumo da arte nas plataformas digitais

08/05/2020

Papo de Futuro: o consumo da arte nas plataformas digitais

O mundo vive uma transformação no consumo de arte, na estrutura das redes e na relação artista-espectador. Neste episódio, abordamos, a partir de visões distintas, as novas construções possíveis no campo da arte e da tecnologia, tais como o desenvolvimento de novas linguagens, a mudança de relacionamento com o público  e a criação de novas funcionalidades nas plataformas. A rede voltou a ser uma ferramenta de conexão afetiva e efetiva das pessoas? Chico Dub, curador e idealizador do Festival Novas Frequências, realizado no Oi Futuro desde a sua primeira edição, em 2011, e Pedro Vilhena, que atua no Facebook e Instagram desenvolvendo parcerias de conteúdo para o mercado musical brasileiro, conversaram sobre o tema “A arte como vetor de transformação e consumo das plataformas digitais”, durante o sexto webinar da série “Papo de Futuro”, organizada pelo Oi Futuro e transmitida toda quarta-feira, às 19h, pelo canal do Instituto no Youtube.

O encontro virtual foi mediado por Luciana Adão, coordenadora de Cultura do Oi Futuro. Ela abriu a conversa com o poema “Tempo de Travessia”, de  Fernando Pessoa, e encerrou com uma reflexão de Gilberto Gil, artista que sempre pensou à frente de seu tempo. Chico Dub, uma referência no campo da pesquisa de arte sonora e música exploratória, reflete:“Independente de todas as questões da pandemia ligadas à saúde, ao enfraquecimento da economia, esse é um momento excitante para se viver; diria que o século XXI começa agora”. Pedro Vilhena, que já realizou palestras em eventos como  SXSW Film Festival e Rio Content Market, observa: “As grandes mudanças ficam por conta do comportamento das plateias”.

Confira abaixo outras dez reflexões de Chico Dub e Pedro Vilhena que marcaram o webinar:

1)Conteúdo descentralizado, simultâneo e global

Vivemos um momento de mudanças estruturais. Mudanças não apenas de forma e processo, mas também de conteúdo. Tudo acontecendo de maneira descentralizada, simultânea e planetária. O primeiro impacto, na visão de Chico Dub, é de completo desespero, angústia. No que diz respeito à cadeia da música, a principal renda dos artistas se refere aos shows. Como gerar receita? Em paralelo, começamos a analisar a profusão das lives, que é algo que sempre existiu e antecede o Covid, mas que agora acontece em escala alucinante. O mais interessante neste momento é que ‘live’ é algo que está além do senso estético propriamente dito, que é esse momento de afago que a arte pode ter com o seu público. Artistas mais radicais e inovadores devem estar repensando suas carreiras e tentando se reposicionar no mercado para além do palco, em busca de novas linguagens. É a arte sendo mais política, mais ligada em questões como meio-ambiente, sustentabilidade e bem-estar. Uma arte que vai rediscutir o mercado e refletir sobre o tempo.

 2)A entrada de um novo público

As plataformas digitais nunca foram tão demandadas. Os artistas têm proposto uma diversidade de ações, vide a profusão das lives. Quais os impactos iniciais? Para Pedro Vilhena, o ser humano não foi feito para ficar isolado. “Penso no Co-Watching, o fato de estar no momento junto com outras pessoas, o quanto isso é forte”. Tivemos um crescimento de 70 por cento no número de lives nos países. Em relação à troca de mensagens, os números são impressionantes. Muitos que não eram tão ligadas ao digital agora interagem de maneira super interessante. Há uma adesão a uma série de recursos que já estavam aí. No momento, a indústria prioriza o mais urgente que é gerar valor. Chegou o momento da inovação e do conteúdo. No mundo real, antes de se abrir a cortina, ninguém sabia o que iria acontecer.

3)O papel dos festivais

O virtual irá substituir o real? Na opinião de Chico Dub, os festivais terão um papel fundamental na construção dos novos mundos, pois se analisarmos a linha do tempo deles, verificamos que sempre ditaram as novas tendências, que vão para além da arte. São zonas autônomas, temporárias. A inovação ocorrerá primeiro com os eventos de pequeno e médio porte, já acostumados ao risco e a trabalhar com processos. Antes do Covid, os grandes eventos já estavam em busca de novos formatos, tentando desenvolver experiências para além da música, extra-palco e, de certa forma, se transformando em parques de diversões. A busca de inovação já era inerente. Quando as coisas ‘aparentemente’ voltarem à normalidade, imagino uma redução das lives e um frenesi de busca de experiências ao vivo. Mas, numa situação de quarentena, de distanciamento social, os festivais precisarão olhar mais para o ecossistema local, para os artistas de suas cidades. Principalmente, em se tratando de eventos de vanguarda. Devem buscar formatos relacionados à educação, ao fomento. Enfim, o festival poderá ser muito mais do que um encontro de artistas.

4)As possibilidades de criação de conteúdo

 Há, praticamente, uma certa unanimidade em pensar que os grandes shows não deverão voltar em 2020, acredita Pedro Vilhena. E aí, sem dúvida, teremos mudanças de curto, médio e longo prazo. Do ponto de vista da ferramenta, as plataformas já aceleraram para o desenvolvimento de recursos para a conexão remota entre fãs e artistas. O Facebook e o Instagram já anunciaram. Mas isso não significa que amanhã teremos holografia. Ainda existem obstáculos para a criação desta tecnologia. Realidade virtual e realidade aumentada são duas tendências incontroláveis. Elas vão entrar em nossas vidas, mas daqui a uns cinco anos. E o desenvolvimento destas tecnologias precisa de um mercado. Haverá mudanças enormes na caixinha de ferramentas de quem trabalha com marketing digital. O momento atual é difícil e perigoso. Não sabemos quando a indústria sairá desse buraco, mas é necessário pensar em um futuro positivo. Teremos um maior conhecimento e o artista terá uma gama maior de ferramentas.

5)Vida digital x presencial

Como essa equação beneficia os artistas e as instituições? Como continuar com a formação artistica em plataformas digitais?  Há situações mais complicadas, como uma aula de instrumento, mas não são intrasponíveis. Há ferramentas para que isso aconteça. Existem artistas mais presenciais, outros mais digitais. O ideal é que eles bebam um pouquinho das duas fontes. No final, o estreitamento da relação com o fã é o que todos querem. Teremos  uma valorização da experiência do ao vivo e um fortalecimento das ferramentas digitais. Para Chico Dub, o e-learning está sendo a grande sensação deste momento: “Estou menos na indústria do entretenimento e muito mais consumindo acervos de grandes instituições, assistindo filmes antigos e trocas de pensamentos”.

6)O conceito fora do palco

Como potencializar o consumo à cultura nesta retomada das atividades após a quarentena? Para Chico Dub, o momento em que estamos vivendo vai ajudar muito a base dos artistas que estão começando a se inserir no ambiente digital. Fazer com que entendam  que não basta compor uma música e apresentá-la em um ambiente de palco. Desde criar música para trilha, desenvolver outras linguagens artísticas, enfim, o espectro é muito amplo. Pós-quarentena, prevejo que essa aprendizagem já esteja dentro da normalidade do fazer artistico. O palco não é o único lugar da música.

7)Onde o artista se desnuda

Para Chico Dub, a aparente fragilidade do artista neste momento em se revelar sem cenografia, maquiagem e direção de arte é fascinante. Poder entrar na casa das pessoas é melhor do que o próprio fazer artistico. E a gente se sente como se fosse quase um voyeur, ali, naquele momento. Além dos conteúdos de troca, de conhecimento, ele exemplificou as geniais filmagens da produtora Paula Lavigne com o marido, Caetano Veloso. “Daria um  excelente curta-metragem!” Enfim, no momento em que o artista se desnuda, ele se torna mais humano, mais real. É uma outra frequência de afeto.

8)Quem não tem acesso à internet

Vivemos em um país com uma realidade socioeconomica cruel e de muitas desigualdades. Quais os caminhos para os jovens que fazem parte deste contexto? Há uma parte substancial que não tem acesso à internet, mas o Brasil, no universo da  América Latina, até tem uma alta penetração de celulares (aproximadamente 90 por cento). Na visão de Pedro Vilhena, esta é uma discussão necessária porque a internet liberta em vários aspectos, pelo menos, como potencialidade e, neste momento, se torna um bem essencial. Expandir o sistema é uma questão de políticas públicas.

9)Qual a melhor forma de divulgação?

Há cada vez menos leitura de jornais, tanto impressos como online. As redes sociais, após uma grande ascendência, gerou momentos de questionamentos. O Facebook reduziu a possibilidade de convidar todos os amigos. Enfim, é muito difícil divulgar evento atualmente, ressalta Chico Dub. Na opinião de Pedro Vilhena, se pensarmos que antes, quando existia o show ao vivo, já se usava muito o digital, a forma de divulgar não mudou tanto agora. Só que aumentou a saturação. Vamos divulgar no digital um show que acontece no próprio digital, ou seja a sua divulgação concorre com o show do outro. Ao termos um produto (show, música, álbum, série), devemos entender o publico e criar uma storytelling, uma estratégia, que é tanto orgânica, quanto de mídia. E sempre com uma cadência, pensando  no pré-lançamento, no lançamento e no pós.

10)A profusão das plataformas

As redes retomaram seu papel original? Não consigo imaginar viver esse momento sem as facilidades do mundo digital”, avalia Chico Dub, lembrando que a troca de informações é fundamental, não pode parar. O papel do curador do festival, de uma plataforma de conteúdo é buscar filtros. Teremos de tudo e cada vez será mais difícil encontrar esses filtros. Para Pedro Vilhena, as redes estão sendo usadas na sua potencialidade, para conectar as pessoas. No pós, não poderemos esperar que as coisas estejam como agora, mas sairemos desta experiência muito mais focados.

Você pode conferir a íntegra do encontro online sobre o tema “A arte como vetor de transformação e consumo das plataformas digitais” aqui.

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