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Papo de Futuro: Teatro – rito e acontecimento

01/03/2021

Papo de Futuro:  Teatro – rito e acontecimento

Nesta edição da série Papo de Futuro, abordamos o processo de criação de uma peça de William Shakespeare para os dias atuais, a partir do texto “Julius Caesar – Vidas Paralelas”. O eterno conflito entre liberdade e autoridade, entre bem público e as ambições pessoais, entre o dever e o interesse, foi construído sob a ótica de Gustavo Gasparani,  responsável pela adaptação da obra para a Cia dos Atores, e do premiado ator e diretor Cesar Augusto. Eles conversam sobre o tema “Cia de Atores – Instalação Julius Caesar ”.  A mediação foi feita por Luciana Adão, coordenadora de Patrocínios do Oi Futuro. A série Papo de Futuro, organizada pelo Oi Futuro, é transmitida pelo canal do Instituto no Youtube, com acessibilidade em Libras.

A Cia dos Atores, que completa 32 anos, é uma das mais prestigiadas e premiadas do Brasil, e sua nova instalação artística, “Processo Julius Caesar – Uma experiência audiovisual”, está atualmente em cartaz no teatro do Centro Cultural Oi Futuro.

“Montar Julius Caesar é uma lente de aumento sobre todas as questões nas quais nós estamos passando, em todos os sentidos”, ressalta Cesar Augusto. “Shakespeare é muito genial porque ele foi à Roma antes de Cristo, pegou um assassinato histórico em um dos momentos mais fortes da história do Ocidente, transpôs para a época dele, o Renascimento, e é completamente atual”, enfatiza Gustavo Gasparani.

Confira abaixo outras dez reflexões de Gustavo Gasparani e Cesar Augusto sobre o tema “Cia de Atores – Instalação Julius Caesar”.

1)O processo de criação da Cia dos Atores

Ator, diretor, curador e professor, Cesar Augusto, 54 anos, fala sobre “Ensaio.Hamlet”.  “As coisas nascem do desejo. O Kike  (Enrique Diaz), então diretor da Cia na época, nos trouxe a ideia. E o processo era extremamente colaborativo. Como se fosse uma apropriação da dramaturgia shakespeariana. Uma série de perguntas em cima do texto do Shakespeare”. Participaram desta montagem, de 2004,  Fernando Eiras, Bel Garcia, o próprio Cesar Augusto, Felipe Rocha, Malu Galli e Marcelo Olinto. Ainda não havia uma sede da Companhia e os ensaios ocorreram em vários espaços diferentes – no Aeroporto, no centro da cidade, na Glória. “No final das contas, não sabíamos mais o que era a peça. Era como se fosse um Frankenstein. Muita construção, muita ideia. Estreamos no Teatro Sesc,  e logo foi um chamariz. Fizemos uma temporada incrível no Rio de Janeiro, atravessamos o Brasil, chegamos a Nova York, ganhamos o prêmio da crítica especializada na França, passamos por Moscou, Bulgária. Ao mesmo tempo, fizemos em Nova Iguaçu, em Teresópolis. A peça foi ganhando uma capilaridade, e percebemos que ela apresentava  um lado erudito e popular muito forte. Tinha um olhar muito peculiar sobre o que seria trazer Shakespeare agora, dentro da atualidade, pensando num futuro de vida e não de morte”.  A temporada durou oito anos.

2)Sempre gostei de tragédias gregas e shakespearianas

Gustavo Gasparani não participou do “Ensaio.Hamlet” porque estava fazendo “Otelo da Mangueira”. Na adaptação, ambientada no Morro da Mangueira, ele misturou a poética shakespeariana com a dos compositores da escola. “Faz parte deste imaginário, desta cultura do samba, as relações passionais.  E a escola de samba, assim como o teatro, é um elemento vivo muito forte. A questão da disputa dos sambas, tudo é muito passional. E aí, aquilo se encaixou já no enredo. Ao poucos,  percebi que as letras das músicas contavam a história do Shakespeare. Dei uma de Chico Xavier, fazendo esse elo entre a poética mangueirense e a poética shakespeariana. E fiz uma coisa que ninguém nunca falou. Nem Barbara Heliodora [consagrada crítica de teatro, 1923-2005]. Na história original, o Otelo está em Veneza, no mundo dessa mulher branca, da corte. Na minha adaptação, a Desdêmona foi para o Morro da Mangueira. É o contrário. E deu certíssimo. Parti de dois universos que me eram muito caros: o teatro e a escola de samba. Sou passista da Mangueira desde 1990, e tenho uma relação forte com o samba”.

3)Sobre Ricardo III e Romeu e Julieta

“Estava na casa do diretor Sérgio Módena, em São Paulo, quando soube que ele queria levar para o palco um monólogo. Se no Otelo eu tinha uma relação que ia para o lado da cultura popular, através do samba da Mangueira, no “Ricardo III”, minha grande referência era Dario Fo [escritor, dramaturgo e comediante italiano, Prêmio Nobel de Literatura de 1997]. Assim, eu e o Serginho fizemos a adaptação”. A peça chegou tanto aos palcos mais sofisticados, como, também para as crianças da Favela da Maré e turmas de alfabetização com pessoas de mais de sessenta anos. Depois de duas indicações ao Shell (com “Otelo da Mangueira” e com “Ricardo III”), além de outras premiações, Gustavo já tinha uma grande identificação com Shakespeare. “Quando rolou o Romeu e Julieta, eu me convidei para fazer a adaptação. Era um projeto do Guilherme Leme com a Aniela [Jordan], da Aventura, que pretendiam uma coisa pop, com música. Sou muito amigo da Marisa [Monte]. Fazíamos teatro juntos na escola. E pensei: nada mais juvenil do que um espetáculo só com músicas dela. Termina o primeiro ato com “Vilarejo”. Começa com “Ontem ao Luar”. E aí comecei a pesquisar, e encontrei uma música para o envenenamento. Era igual ao texto da Julieta. Liguei para o Edu [Eduardo Rieche], meu parceiro em “Mimosas”, e disse que estava no início de uma pesquisa. Ele topou e surgiu “Romeu & Julieta ao Som de Marisa Monte”.

4)“Julius Caesar – Vidas Paralelas”

E aí, Gustavo chega ao Julius Caesar. Quando estava realizando “Samba Futebol Clube”, um golaço como autor e diretor, trabalhava com oito meninos músicos, ótimos atores, e chegou a pensar em fazer com eles um Shakespeare. Mas optou por estabelecer um paralelo entre o macropoder político de Roma para falar de um micropoder de um grupo de teatro. Aqueles micropoderes que estão nas reuniões de condomínio, numa relação amorosa. Foram pegos de surpresa por essa pandemia. Ele descobriu, há um mês, através de uma amiga, professora de literatura inglesa, que Shakespeare, para criar os personagens, recorreu às relações interpessoais no trabalho. “Acho que esse tipo de coisa confirma a intuição. Se vem uma ideia, em cima de um texto recorrente, ela vai se justificar. Essa se justificou antes de a gente poder estrear. É uma peça que pode ser muito potente, porque, embora seja uma ficção, a relação de um grupo de teatro é a nossa vida. E o Shakespeare escreveu essa peça para poder falar da questão da Inglaterra elisabetana. São, na verdade, três épocas: a do Julius Caesar, a do autor, quando escreveu, e a nossa época, que a gente escreve nesse momento pandêmico, onde não sabemos como iremos nos comportar. E a peça fala de tudo isso”.

5)Apostar na proposta

“Namoramos a peça “Julius Caesar – Vidas Paralelas” durante muito tempo. Desde a estreia do espetáculo “Conselho de Classe”, comemorando 25 anos da Companhia, em 2014, imaginávamos qual seria o próximo”, lembra Cesar. “Quando o Gustavo trouxe, novamente, a ideia do Julius Caesar, pensando nesse universo de uma companhia de teatro que estava montando um espetáculo, já havia esse DNA. Lemos algumas traduções interessantíssimas. Quando montamos “Insetos”, relemos Julius Ceasar para nos inspirar no processo de criação. Chegou uma hora em que o trabalho, com certeza, já estava no nosso sangue, na nossa perspectiva de montagem. Quem é Caesar? O que representa Caesar? Embora Caesar quase não participe da peça, a figura de Caesar permanece inteira. O que é a paixão política sobre um líder? Fomos entendendo que era uma necessidade urgente de se trazer Shakespeare nesse momento”.

6)A escolha do diretor

Gustavo e Cesar tinham em mente os nomes de dois jovens diretores para Julius Caesar: Rodrigo Portella, que acabou dirigindo “Os Insetos”, de Jô Bilac, e Rafael Gomes, que já tinha dirigido um clássico como “Um Bonde Chamado Desejo”. Ambos também escrevem, lidam com o texto de uma forma muito especial e, ao mesmo tempo, têm uma linguagem da encenação extremamente arrojada, contemporânea e criativa. A direção de Julius Caesar ficou com Rafael Gomes, que veio de São Paulo para o desenvolvimento do projeto, mas suspenso por conta da pandemia. “Tivemos a oportunidade de criar essa obra, esse experimento audiovisual, que está sendo apresentado no teatro do Centro Cultural Oi Futuro, e que fechou com chave de ouro o processo de ensaios desta primeira parte”, acrescentou Cesar, exibindo, em seguida, um vídeo com um belo depoimento de Rafael Gomes.

7)Como Shakespeare lidaria com a pandemia? E Romeu e Julieta com lockdown?

Shakespeare escreveu algumas peças durante pandemias, reflete Cesar. “E, com certeza, Romeu chegaria com um teste PCR. Talvez, algumas festas clandestinas”, imagina Gustavo. “Minha maior angústia é: quando esta sociedade estiver liberada, ela vai ávida em busca de teatro? Qual será o interesse do público?”, indaga Cesar.

8)O texto de Julius Caesar é um desafio para os atores?

“Acho que é um desafio instigante para os atores. São personagens muito bons, muito profundos, com possibilidade de diálogo com passado e presente, com sua experiência emocional e pública muito forte. Somos seis atores em cena, centrados em quatro personagens”, observa Gustavo. Cesar complementa: “Qualquer texto de Shakespeare traz personagens sensacionais. É a reinvenção do humano. Julius Caesar tem essa questão que é um cenário político que se abre. É um desafio para qualquer ator entender isso, digerir essa situação, apropriar-se dela. Um prato cheio. A antropofagia é a prova dos nove da Cia dos Atores”.

9)A experiência da pandemia modifica o projeto original?

Cesar responde: “São dois caminhos. Um é o meio de produção e o outro é o meio artístico. No meio de produção, suspendemos o processo de trabalho para que a gente consiga fazer na situação ideal. Postergamos para o início do ano que vem, provavelmente. Com relação ao artístico, de alguma forma, vai aparecer. Estávamos num processo de investigação do Shakespeare, e Vidas Paralelas estava apenas aparecendo quando resolvemos suspender. Como há situações muito reais, acredito que alguma coisa vá ser absorvida na montagem”. Gustavo acrescenta: “Acho que tem uma questão emocional. Ninguém será outro. Tenho 53 anos. Não sou mais o mesmo. Por muitas vezes, o teatro se escapa da sua função primordial. No dia em que eu pisar no palco, estarei dando tudo meu, de uma forma visceral”.

10)A transformação com o teatro e planos para 2021

“A sede da Cia obviamente encontra-se fechada por conta da pandemia, mas os trabalhos online e as oficinas estão sendo muito bem sucedidas na nossa programação, que é muito variada, e vai desde dublagem, direção à dramaturgia. Reabrimos as inscrições para os residentes – é um processo de um ano de trabalho. Quem estiver interessado, é só entrar nas nossas mídias sociais. Foi uma forma de continuar a desenvolver nosso trabalho artístico e, também, de formação”, observa Cesar.  Quanto às transformações com o teatro, Gustavo finaliza: “Vamos viver o passo a passo. Eu, como artista, estou louco para fazer teatro. Só não quero fingir que não aconteceu nada”.

Você pode conferir a íntegra do encontro online sobre o tema “Cia de Atores – Instalação Julius Caesar” aqui.

 

 

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