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Papo de Futuro: Comunicar e mobilizar em prol de um bem comum

18/06/2020

Papo de Futuro: Comunicar e mobilizar em prol de um bem comum

No Papo de Futuro – Articulação e Mobilização de Redes, abordamos a importância da solidariedade e da mobilização para minimizar os impactos da pandemia na vida das pessoas. Para debater sobre como o universo digital impulsiona e proporciona impactos reais e efetivos, recebemos Priscila Rodrigues, coordenadora de comunicação do Observatório de Favelas, e Gabriela Agustini, fundadora e co-diretora do Olabi, organização focada em estimular o uso de tecnologias para transformação social. O “Papo de Futuro” é uma série organizada pelo Oi Futuro e transmitida toda quarta-feira, às 19h, pelo canal do Instituto no Youtube, com acessibilidade em libras. O encontro virtual foi mediado por Luciana Adão, coordenadora de Cultura do Oi Futuro.

Priscila Rodrigues, que integra o Fórum Permanente pela Igualdade Racial – Fopir e lidera a campanha de comunicação “Como se proteger do coronavírus”, ressalta: “A coletividade é a forma mais inventiva de existência nas favelas e periferias”. Gabriela Agustini, referência no universo digital para mobilização e articulação de redes e consultora de inovação, tecnologia e criatividade, observa: “Nosso papel é sistematizar e conectar as informações”.

Confira abaixo outras dez reflexões de Priscila Rodrigues e Gabriela Agustini sobre o tema “Articulação e Mobilização de Redes”:

1)A comunicação e as narrativas de existência

Nascida e criada em Guadalupe, quarta filha das cinco de dona Ivone, Priscila Rodrigues sintetizou os quase 19 anos de atuação do Observatório de Favelas: organização da sociedade civil, localizada na Favela da Maré, trabalhando com cinco eixos principais – educação, direito à vida e segurança pública, arte e território, políticas urbanas e comunicação. Quando surgiu a pandemia, embora tenha começado pelos corpos mais abastados, sabíamos que eram os corpos negros, periféricos e femininos que seriam os mais afetados. Diante deste cenário, iniciamos a campanha “Como se proteger contra o coronavírus”, destinada a moradores de favelas e periferias. Constituímos um grupo de trabalho e estabelecemos encontros online diários com especialistas. Neste ambiente, criamos as narrativas de existência frente ao desafio. Convidamos o especialista e parceiro a se despir dos seus saberes e a colocar seu conhecimento a serviço de uma possibilidade de enfrentamento. Tudo dentro de uma linguagem direta e com música. Ao invés de usarmos o termo “empreendedores”, referíamos ao seu Zé da padaria, à moça do bar da esquina, à senhorinha que faz bolo. E também memes, como diz o médico Drauzio Varella, “Cansada de fake news, não é, minha filha?”. Elaboramos conteúdos específicos para mototaxistas, LGBTs, idosos, crianças, nos mais variados formatos – textão, peças gráficas, vídeo e áudio. No final, um recado carinhoso: “Passe esse áudio pra geral que você ame e quer cuidar em tempos de coronavírus”.

2)As ações da Protege.BR

O Olabi trabalha basicamente para que a tecnologia possa ser produzida e discutida por gente de todos os contextos e formações, no sentido de democratizar o acesso, entendendo como ferramenta de transformação social, conta Gabriela Agustini. “Nossa maior missão é ressignificar o olhar para a inovação”. Ela criou a Protege.BR, uma rede de apoio aos profissionais de saúde contra o Covid-19, diante da falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e outros produtos hospitalares. Tudo começou através da mobilização de uma série de grupos no mundo inteiro, e que chegou ao nosso país. Um movimento capitaneado pelas universidades, institutos federais, centros de pesquisa, agentes da indústria. “Vimos a generosidade humana se voluntariando para produzir, criar e tentar suprir uma demanda emergencial. Brasil afora, consórcios, grupos de costureiras produzindo máscaras para enfermeiras e médicos, gente arregaçando as mangas e construindo o possível, dentro de suas condições locais. E aí, colocamos o nosso desafio na Protege.BR”, acrescenta Gabriela. A partir de um mapeamento, reconheciam as iniciativas, sabiam quem estava produzindo os EPIs, abriam protocolos de projetos e colocavam tudo na plataforma para organizar os contatos junto às secretarias de saúde municipais e estaduais. Com a mobilização de encontros fechados ou abertos, localizavam pessoas que estão produzindo os mesmos itens, em contextos variados e em inúmeras cidades e estados, e as colocavam para conversar, estabelecendo uma rede de cooperação. De imediato, o foco é estimular a produção dos EPIs. Por outro lado, entendem que, mais do que o processo da pandemia, trata-se de um processo de comunicação, com a criação de infraestruturas que podem mover e pautar o ‘futuro-presente’. Uma construção do futuro que pode prevenir outras crises humanitárias.

3)Ferramentas mais potentes

“Em primeiro lugar, pessoas com vontade de fazer”, diz Priscila. A seguir, as demais ferramentas: o Skype, para as conversas com os especialistas; uma equipe perseguindo a nossa missão; as parcerias constituídas ao longo dos 19 anos do Observatório (ninguém faz nada sozinho); um espaço virtual de diálogo com moradores das periferias, onde cabem nossas angústias e podemos nos cuidar. Gabriela complementa: “Às vezes, paramos pouco para escutar. Na Protege.BR, uma de nossas maiores indicações para aqueles que querem produzir é entender, ouvir. E, além dessa escuta ativa, vem a capacidade de se conectar com o que já estão acontecendo. Daí, as parcerias vão se acomodando e os resultados serão cada vez melhores. Do ponto de vista de ferramentas práticas, usamos a linguagem do dia a dia, como E-mail o WhatsApp,  Zoom, Facebook. No momento em que o tempo conta muito, precisamos chegar rápido nos lugares.

4)Memórias afetivas: seriam também ferramentas?

Acho lindo pensar em memória como ferramenta, observa Gabriela, lembrando dois projetos que acontecem durante a pandemia: o Inumeráveis, memorial dedicado à história de cada uma das vítimas do coronavírus no Brasil, e o Memórias Sonoras da Pandemia, mapeamento coletivo onde a pessoa informa o que está sentindo. Vivemos um momento muito peculiar da nossa história, onde não sabemos no que vai dar. Assim, quanto maior for a nossa capacidade de sistematizar a informação, melhor poderá ser aproveitada no futuro. Priscila diz que a campanha trabalha a memória o tempo inteiro. É a memória do cuidado, do fazer coletivo. “Olhamos o passado para refletir sobre o presente e escrever o futuro. Eu não venho sozinha. Venho a partir das minhas memórias, de meus pais, de toda a minha família. Como a memória nos faz criar possibilidades de enfrentamento!”

5)Como potencializar as narrativas em salas de aula

Potencializamos a partir do momento que a gente se dispõe a escutar, ressalta Priscila. Criamos respostas a partir desta escuta, deste diálogo. A comunicação passa pelo nosso corpo, pelas nossas vivências. Acredito que nas narrativas seja assim. Quem está fazendo precisa estar recebendo. Precisamos nos despir para construir as narrativas. Gabriela acrescenta: “Tenho mais perguntas do que respostas. Minha esperança é que, não só nas escolas, mas, principalmente, na Educação, a gente abra espaço para o experimentalismo. Experimentar é uma das melhores coisas que podemos fazer para construir uma sociedade diferente da que a gente tem. Como contar a sua própria história se você não tem o direito de experimentar?

6)Visualizações e sistematizações

Basicamente, conseguimos conexões entre as iniciativas, que estão gerando resultados concretos, conta Gabriela. Citou o exemplo de Stephanie Kamarry, professora do Instituto Federal de Sergipe, que, em pouquíssimo tempo, montou um ‘exército’ de muitos voluntários e conseguiu atender toda a demanda de face schield (máscara facial) do estado, numa parceria com a Secretaria de Saúde. Quando se tem uma informação facilitada do outro lado, as coisas fluem rápido e vão sendo montadas as cooperações. Também geramos visualizações e sistematizamos os resultados, juntando o todo. Chegamos a quase um milhão de face schields do que a gente conseguiu contabilizar das iniciativas.

7)Resultados da campanha

Não medimos tanto por números, avalia Priscila. Mas, disparamos para cerca de 5 mil pessoas através do WhatsApp, e conseguimos alcances relevantes no Facebook e no Twitter. Nossos resultados dizem muito sobre as parcerias com os especialistas, com as organizações da Maré. Um dia da nossa campanha é dedicado ao boletim “De Olho no Corona”, que é parte da campanha “Maré diz NÃO ao coronavírus”. Temos também uma parceria com a Mag Produtora, agência de São Paulo que está transformando nossas peças em vídeos; outra com os mototaxistas. Galeras de São Paulo,  Recife e São Gonçalo se apropriaram dos nossos conteúdos, pensando ações de impacto social.

8)O desdobramento das iniciativas

Em relação ao Observatorio, coletivamente, temos caminhado para um lugar interessante. Acho que não voltaremos para a normalidade, ressalta Priscila. Além disso, a equipe de Comunicação tem crescido durante a pandemia e pretendemos ampliá-la para dar conta desse grande desafio. Na próxima semana, lançaremos um canal de WhatsApp para falarmos com as pessoas com mais consistência.

9)Pensando o futuro

No início, compartilhando com pessoas próximas, tinha dificuldades em pensar no futuro, confessa Priscila. E imaginei que essa dificuldade, essa limitação, é porque esse futuro, realmente, precisa ser outro. Mais solidário, menos racista, garantindo direitos fundamentais às pessoas. É tanto uma reflexão, quanto um convite, uma provocação. Que venha outro pacto civilizatório onde caiba tudo isso. “E assim seguimos materializando as nossas utopias, construindo coletivamente narrativas de existência, e a partir de moradores de favelas e periferias”.

10)Para onde iremos?

A ideia de materializar futuros e sonhos é uma das coisas mais potentes que a gente pode pensar em construir, reflete Gabriela. Quanto ao futuro da Protege.BR, imagino mantê-la como uma rede de troca e possibilidades de cooperação, principalmente quanto aos agentes que trabalham com fabricação digital. Todo esse movimento parte muito da história de materializações, no sentido bem físico. Porque se consegue desenhar até num papel e materializar numa peça impressa. São coisas que antes não se fazia. Devemos seguir como uma rede, independente dos produtos. Entendo que conectar esses agentes, dando visibilidade, potência, espaço, reforçando o papel das universidades, dos institutos federais, dos centros técnicos, que têm sido grandes protagonistas nesse processo, tudo isso pode ser muito relevante para o país.

Você pode conferir a íntegra do encontro online sobre o tema “Articulação e Mobilização de Redes” aqui.

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