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Papo de Futuro: Posicionar-se para transformar

31/08/2020

Papo de Futuro: Posicionar-se para transformar

Uma troca feminina de experiências, destacando projetos culturais e sociais para mobilização em busca da equidade de gênero. Quais são as aspirações, dificuldades, medos e sonhos sobre a trajetória empreendedora de mulheres? Sandra Vale, diretora da Potência.Diversa, e Sophia Prado, co-fundadora e CEO do FREELAS e da ColetivA DELAS, analisam o tema “Potencial criativo feminino para transformação de impacto”, durante mais uma edição da série “Papo de Futuro”, organizada pelo Oi Futuro e transmitida às quartas-feiras, às 19h, pelo canal do Instituto no Youtube, com acessibilidade em libras. O encontro virtual foi mediado por nossa coordenadora de inovação social, Flávia Vianna.

“Chega de romantizar a ideia de que a gente precisa um futuro melhor”, enfatiza Sophia Prado. Sandra Vale exclama: “Eu quero viver numa sociedade equitativa, e isso não significa que estou contra os homens”.

  Confira abaixo outras dez reflexões de Sandra Vale e Sophia Prado sobre o tema   “Potencial criativo feminino para transformação de impacto”.

  1)O papel das mulheres e a luta contra a violência

Sandra Vale é advogada, com uma trajetória de trabalhos vocacionados, sobretudo, para causas sociais. No início da carreira, atuou na área de Segurança Pública, o que acabou levando-a mais para o olhar das violências, especificamente, aquelas que atingem mulheres no Brasil, com um viés para a interseccionalidade, para a questão da raça. Responsável pela empresa Potência.Diversa, ao lado da sócia, Luiza Proença, acredita que é possível mudar esse mundo. “Eu quero um mundo livre de violências, e faço todo o trabalho por isso”, ressalta Sandra.

2)Inspirar e conectar

Doutoranda em Antropologia, Sophia Prado pesquisa o empreendedorismo feminino, como uma forma de resistência. É, também, advogada e oriunda da Segurança Pública. Iniciou a sua pesquisa pensando em masculinidade e, posteriormente, começou a refletir sobre as questões do feminino. Desde 2016, dirige a ColetivA DELAS, um Hub criativo que atua para inspirar, conectar e gerar oportunidades profissionais para mulheres e LGBTs, através da produção de eventos e do audiovisual. “Apesar de estarmos falando sobre mulheres, somos muito diversas enquanto mulheres”, destaca Sophia.

3)Articulação e mobilização nas instituições

“É o papo da nossa vida, é a base do que nós lutamos há tanto tempo”, reflete Sandra, lembrando que a legislação atual no Brasil prevê que todos são iguais, com os mesmos direitos. “Porém, a prática é muito diferente. Se olharmos os rankings de países que têm mais violência contra meninas, ou que tenham mais situações de casamento infanto-juvenil, o Brasil está no topo. Desde o nosso nascimento, buscamos uma referência, o nosso lugar. Avançamos muito, não podemos esquecer toda esta trajetória histórica que nos permite estar aqui hoje, mas ainda é pouco. Os números preocupam: durante a pandemia, 7 milhões de mulheres perderam o emprego, e em muitas cidades, aumentou a violência doméstica – no Rio de Janeiro, pelos dados oficiais, houve um crescimento de 50 por cento nas denúncias. Estatísticas da OIT (Organização Internacional do Trabalho) apontavam, há cerca de dois anos: para que uma mulher e um homem tivessem o mesmo cargo dentro de uma empresa, seria preciso esperar 200 anos. “Minha filha não verá isso; provavelmente, nem a minha neta”. Mesmo avançando, percebemos que as mulheres continuam morrendo, sofrendo violência, que os salários não são iguais e que elas precisam ser extremamente criativas 24 horas por dia, para dar conta de tudo.  “Mas, quem disse que eu tenho essa obrigação com o meu cotidiano? Isso, no entanto, não é um manifesto contra os homens. É uma questão da nossa sociedade, que ainda é patriarcal. Há um desafio imposto. Mais do que olhar os dados, empresas, por favor, abram suas pesquisas de clima. Contratem pessoas que trabalham com esse tema, porque é importante produzir mais metodologia e algo que seja eficiente. Uma mulher empreendedora não precisa ser uma super mulher”.

4)Democratizar as formas de trabalhar

“Quando olho para uma empresa de grande porte, acima de 500 funcionários, é mais fácil, por conta do seu formato, da sua capacidade gerencial, investir mais nesta temática. No caso de médias, pequenas e, sobretudo, microempresas, para que possam implementar uma política super importante, como, por exemplo, de licença maternidade ou paternidade estendida, há um investimento que terá de ser feito para compor esta estrutura”, reflete Sandra. Então, é mais natural encontrar boas iniciativas e boas práticas acontecendo dentro das maiores organizações do que nas menores. Essa linguagem ainda não está no escopo delas. Um dos grandes desafios para as empresas é entender que elas têm um papel essencial, e que se encontram em uma cadeia de valores tão importante, pois tudo o que fizerem relacionado a esse tema provoca impacto na sociedade.  “Precisamos começar a democratizar as formas de trabalhar essa temática e saber como estamos nos relacionando com o outro. É importante transformar esses desejos em ação. O que eu faço para mim tem impacto na sociedade como um todo”, acrescenta.

5)A ColetivA DELAS

“Trabalhamos muito focados em conteúdo digital, audiovisual e em eventos para impactar mulheres e LGBTs, mas sempre pensando em como gerar mais oportunidades também para mulheres mães, mulheres pretas, enfim, em todas essas interseccionalidades, categorias e recortes”, conta Sophia. Dentro da situação de isolamento social e, também com o objetivo de ampliar o impacto da ColetivA DELAS, veio a pergunta: Como prosseguir trabalhando e impactando mulheres? Daí surgiu o FREELAS, uma plataforma digital que conecta mulheres da economia criativa entre si, e a quem deseja contratar para projetos ou serviços com eficiência e representatividade. Hoje, funciona como um match de profissionais e empresas. O objetivo é que essas mulheres tenham mais visibilidade para vender seus serviços. “Queremos uni-las, capacitá-las, e lhes oferecer mais condições para que consigam se inserir de uma forma mais equânime no mercado de trabalho. A ideia é fazer com que essas mulheres tenham autonomia financeira. Precisamos trazer o recorte de gênero para pensar a lógica do empoderamento feminino”, observa.

6)O debate do empreendedorismo

É um grande desafio, na visão de Sophia, entender o empreendedorismo como uma atitude, e pensar que para crescer como uma empreendedora free-lancer não é menos necessário o planejamento financeiro e conseguir, por exemplo, separar as contas pessoais das profissionais. Existe muita competência técnica, mas a parte de gestão, muitas vezes, diz respeito às competências que acabam sendo menos disseminadas. Isso porque as mulheres não foram treinadas para empreenderem. Elas apenas foram rejeitadas em um mercado de trabalho excludente, especialmente, com profissionais mães, e acabam buscando carreiras alternativas. “No FREELAS, temos a perspectiva de buscar e empoderar as mulheres, não romantizando”. E mais: o empreendedorismo como atitude é algo que pode estar presente, inclusive, se o trabalho é dentro de uma organização.

7)A terceira onda feminista

Sophia concorda que a terceira onda feminista da América Latina está surtindo efeito no campo do empreendedorismo social.  Ela vê essa busca pelo empoderamento e autonomia das mulheres, ao rejeitarem a serem colocadas nos lugares em que, muitas vezes, elas estão, o que acaba afetando na tomada de decisão de empreender também. Diante da falta de valorização, a mulher vai construir novos caminhos.

8)Como superar as dificuldades provocadas pela pandemia

Sandra, assim, como muitas pessoas, estava cheia de planos em fevereiro. A pandemia traz um grande holofote para o mundo e, especificamente, para o Brasil, que é a nossa desigualdade. “Vivemos em um país racista, misógino e homofóbico, além de todas as demais questões. Devemos tratar esses assuntos como prioridade e entender que sem isso não iremos avançar, que nos últimos três anos, o cenário da fome vem aumentando significativamente, e que a pandemia leva para as ruas, cada vez mais, pessoas que perderam seus empregos. Não há sociedade que vá conseguir sobreviver nesta situação. Nós, mulheres, estamos apanhando mais dentro de casa, perdendo nossos empregos, com filhos sem capacidade de estudar – porque o home office não é para todos.  Tenho exemplos maravilhosos de pessoas que vêm resistindo e iniciativas incríveis de organizações. Mas, ao mesmo tempo, os desafios são muitos. E é necessário que toda a sociedade esteja envolvida nesta transformação”.

9)Em torno de uma construção comum

Para Sophia, gerar espaços de visibilidade é importante, mas não é o suficiente. Não basta posicionamento de marca; é necessário responsabilidade social. No FREELAS, batem muito na tecla da representatividade. Como realizar ações para falar sobre mulheres pretas e executadas por homens brancos? Não fale apenas; gere emprego. Mude a forma como você contrata, dê possibilidade para que as mulheres que já estão na sua organização possam ascender dentro dela. Transforme as suas ações numa cadeia de valor. Sandra acrescenta: “Se importe, se incomode. Olhe no seu ambiente de trabalho e verifique quantas mulheres negras tem. E, a partir desta crítica, comece a transformar. As empresas precisam dizer claramente no que elas acreditam. Qual o propósito, qual a causa que elas querem trazer junto com a sua logo, com a sua marca. Se eu não mudar o que está acontecendo agora, não terei uma vírgula de um futuro melhor”.

10)Equidade nos processos entre homens e mulheres

Sandra conhece empresas que vêm trabalhando muito esse tema, e algumas são referência de boas iniciativas, como é o caso da White Martins e da Di Agil, esta última no segmento de produtos de luxo. Outras fazem o trabalho pela sua área de responsabilidade social ou que incidem sobre seu business, ou, ainda, atuam com  políticas ligadas aos LGBTs, seja nos investimentos ou nas ações. “Somos muito mais fortes juntas”, declara. Sophia chama atenção para práticas interessantes: a Uber -, prestadora de serviços eletrônicos na área do transporte privado urbano – além da licença estendida de paternidade, tem também algumas iniciativas voltadas para a educação de mulheres; e a Esporte Educação, que implantou o ensino de Robótica para meninas, “o que é muito importante, ao pensarmos em um futuro cada vez tecnológico”.

  Você pode conferir a íntegra do encontro online sobre o tema “Potencial criativo feminino para a transformação de impacto”, aqui.  

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