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Rio2C: Futuros diversos na música que vem da periferia

21/04/2019

Rio2C: Futuros diversos na música que vem da periferia

A música é uma ferramenta potente de integração e inclusão para os jovens que vivem nas periferias brasileiras. Ela dá voz a anseios e estimula o aprendizado de outras manifestações artísticas, como o audiovisual, o grafite e a fotografia. Atenta a esse cenário, desde 2017, através do Labora e do LabSonica, laboratórios de Inovação Social e Experimentação Sonora do Oi Futuro, a Oi apoia e impulsiona projetos que atuam nesse território com criatividade e inovação para gerar impacto social. E não à toa a música é um dos temas centrais de painéis e debates da Rio 2C 2019.

Essa vitalidade é encontrada, por exemplo, no Instituto Enraizados, que surgiu no bairro Morro Agudo, de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. O projeto nasceu há quase 20 anos, com foco na cultura do hip hop. Os jovens do local se reuniam para ouvir e compor músicas desse estilo, que costuma dar voz a populações menos favorecidas. Atualmente, os responsáveis estão envolvidos em diversas iniciativas e algumas buscam melhorar as condições de vida da comunidade, como o projeto “Meu Bairro, Meu Ambiente”, que pretende propor soluções para os problemas urbanos.

O rapper Dudu do Morro Agudo, uma das lideranças do Instituto, ressalta que um dos marcos da história do Enraizados foi a premiação no festival “Take Back the Mic”, em Miami, em 2015. Ter vencido a competição de hip hop deu visibilidade ao projeto, que finalmente ganhou uma sede própria. Tal estrutura vem favorecendo a realização de cursos e oficinas, que ajudam a espalhar para diversos lugares não só técnicas, mas também ensinamentos de como realizar projetos culturais. Ele estima que mais de 50 mil pessoas já tenham passado pelas aulas nas últimas duas décadas.

“Com o tempo desenvolvemos um modo de pensar, que procuramos ensinar a todos e espalhar pelo mundo. Temos que realizar nossas ideias de forma criativa, com recursos próprios e com baixo custo. Foi assim que fizemos sempre nossa divulgação, criando jornal e site, fizemos filme, livro, exposição fotográfica”, conta Dudu, diretor do projeto, que é uma das iniciativas impulsionadas pelo laboratório de inovação social do Oi Futuro, o Labora.

O Enraizados criou um método de ensino que permite a um grupo aprender a compor hip hop em apenas três horas. A prática já está sendo amplamente utilizada em escolas e se integrando às atividades pedagógicas. Através de um jogo os participantes criam suas músicas e gravam pelo celular. O chamado RapLab encanta educadores não só da Baixada como de outros estados.

Coletivo Baixada Nunca se Rende no Lab Oi Futuro

Por mais espaços de criação – Mesmo que a Baixada Fluminense já tenha contribuído com nomes de sucesso da música pop nacional, como no caso do grupo Cidade Negra e do cantor Seu Jorge, a riqueza cultural da região ainda tem muito a ser explorada. Na década de 1990 e início dos 2000, houve até uma atenção maior da mídia e do público para a região, por conta do despontar desses nomes, mas o fenômeno aos poucos perdeu força. Um dos motivos é a falta de espaços como o Centro Cultural Donana, em Belford Roxo, onde artistas se projetaram.

Para tentar mudar esse quadro, um grupo de artistas e bandas criou o coletivo “Baixada Nunca Se Rende”, que conta com o apoio da Organização das Nações Unidas. Um dos integrantes é o cantor e compositor Eddi MC, da banda Nocaute. O grupo teve três CDs gravados e concorreu ao Grammy Latino em 2002. A iniciativa também é impulsionada pelo Labora, onde recebe mentorias que vão da estruturação do negócio até preparação para captação de recursos.

“O coletivo já reúne mais de 100 artistas. Nos juntamos para chamar a atenção para a riqueza cultural da região, ajudar no desenvolvimento dos músicos e combater o preconceito”, afirma Eddi.

O movimento já conseguiu uma importante vitória ao ser retratado no filme com o mesmo nome, dirigido por Christian Tragni e Juliana Spinola, que ajuda a divulgar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. No documentário, os músicos contam suas histórias e experiências na produção artística e no engajamento por melhorias na qualidade de vida das periferias. O objetivo é que as ideias possam servir de exemplo para a mobilização de outras comunidades no mundo todo e para a criação de projetos autossustentáveis.

“Uma das nossas lutas é pela ampliação do número de centros culturais da região”, conta Eddi.

Outro integrante de coletivo é o cantor Renato Biguli, que participa do Monobloco e já integrou a banda “Cabeça de Nêgo”. Segundo ele, as dificuldades vividas pelos artistas da periferia trazem obstáculos para o sucesso na carreira, mas também servem de inspiração para a criação das músicas. Ele conta que quando começou era difícil até encontrar espaços para se apresentar. Por isso, a união entre esses artistas e os produtores é tão importante.

“O sofrimento que a gente passa ajuda a aflorar o amor, a sensibilidade e até as manifestações de protesto”, afirma o cantor.

Biguli se declara autodidata, mas defende mais investimentos em educação para que os jovens da periferia também saibam ler partituras e tenham mais conhecimentos teóricos. De fato, a inspiração não pode prescindir da estrutura e também da tecnologia para a criatividade e a expressão artística sejam estimuladas e concretizadas. É a lição da banda “Monera”, cujos integrantes são de Nova Iguaçu e São João de Meriti. O grupo não só produz música, misturando estilos tradicionais com eletrônico, como difunde ideias. Atualmente ensina jovens a comporem através de tablets.

“Muitas vezes os grupos precisam de alguém que os ajude no gerenciamento do trabalho. Eu acreditei no Monera e estou ajudando a dar mais visibilidade a eles.  Terem se apresentado nos três dias do ‘Tattoo Week’ já foi um bom resultado”, diz o produtor André Luiz dos Santos, referindo-se a evento realizado em São Paulo no fim de 2018.

O projeto, que não inclui só a banda, também procura estimular a dança de rua e rodas de rap. Uma das propostas do grupo é colocar no aplicativo Spotify as 50 músicas mais marcantes de cada município da Baixada.  Recentemente, a banda ensaiou e gravou no estúdio do Lab Oi Futuro, que oferece acesso ao espeço e equipamentos por meio do programa de aceleração e mentorias de artistas residentes selecionados por editais e chamadas públicas.

“A tecnologia pode fazer com que as coisas fiquem mais fáceis para os jovens da periferia. Parte dos recursos para compor e gravar está mais acessível e com um tablet, ou mesmo um celular, já é possível explorar muitos recursos”, explica o produtor.

O acesso à tecnologia facilita, mas não basta para turbinar a criatividade existente nesses ambientes da periferia. É preciso dar espaço, formação e conectar esses artistas para fazer com que essas criações superem a invisibilidade que ainda as envolve.

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