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Rio2C: Dormir bem e sonhar para criar e aprender melhor

24/04/2019

Rio2C: Dormir bem e sonhar para criar e aprender melhor

Grandes descobertas e ideias que mudaram o mundo surgiram durante o sono: pinturas de Salvador Dalí, a tabela periódica de Mendeleev e a máquina de costura com ponto fixo, que revolucionou a indústria têxtil no século 19. Os sonhos e o descanso proporcionados pela inconsciência em posição horizontal trazem desintoxicação cerebral, melhoram a capacidade de memória, de aprendizado e até ajudam a encontrar soluções para problemas. Quem garante é vice-diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Sidarta Ribeiro, que lidera pesquisas sobre os mecanismos responsáveis pelas diferentes funções cognitivas do sono e dos sonhos. Ele mesmo já viveu uma situação limite quando foi morar em outro país e lembra que os períodos de sono e sonhos os ajudaram a encarar as dificuldades de adaptação. “Resolvi estudar os mecanismos neurais responsáveis por essa adaptação e desde então nunca mais parei de pesquisar o assunto”, conta Ribeiro, que fala sobre “Sonho, Sono e Criatividade” na Rio2C 2019 e defende, inclusive, a adoção de sonecas nas escolas e nos ambientes de trabalho.

Em que medida já é comprovado que a boa qualidade do sono ajuda na capacidade de memória e cognição das pessoas?

Sidarta Ribeiro: Trata-se de um fato científico sólido, com ampla demonstração em diferentes espécies e profundas implicações para a educação. Dormir adequadamente antes de aprender algo novo é fundamental para o sucesso do aprendizado. Do mesmo modo, o aprendizado é mais duradouro, criativo e emocionalmente inteligente quando seguido de sono. Sono e cognição são intimamente ligados.

Ter boas noites de sono melhora a capacidade de memorização de forma geral?

Ribeiro: Sim, tanto para as memórias declarativas, como lembrar nomes ou contar histórias, quanto para as memórias de procedimento, como andar de bicicleta ou jogar capoeira. O sono ajuda a desintoxicar o cérebro de metabólitos indesejados, facilita a criatividade e ajuda a regular emoções negativas. O vício em telas, que hoje aflige uma parcela enorme da população planetária, é muito deletério para a qualidade do sono. O mesmo ocorre com o consumo de álcool. Precisamos entender que o excesso faz mal e voltar a tratar o sono com o devido cuidado. Noites de pouco sono ou de sono fragmentado são fatores de risco para várias doenças.

Esse processo se dá apenas durante o período do sono ou o cérebro mais descansado, digamos assim, teria maior capacidade de apreensão das informações durante o dia?

Ribeiro: Descansar é sempre bom. Mesmo que a pessoa não entre em sono, a quietude corporal e mental traz benefícios. A postura horizontal facilita a desintoxicação cerebral. Uma pessoa descansada está muito mais apta a aprender do que uma pessoa cansada ou privada de sono.

Nos seus estudos e em trabalhos recentes de outros centros de pesquisa, que outras descobertas têm sido mais reveladoras sobre a importância do sono para o ser humano?

Ribeiro: Pesquisas recentes têm realizado descobertas muito interessantes sobre o sono. Nos últimos anos, novas funções do sono e do sonho foram descobertas, como o esquecimento seletivo de memórias e sua restruturação, o que leva à criatividade. Também têm ficado mais claros os mecanismos de produção e eliminação de sinapses que atuam durante as diferentes fases do sono, como a ativação de certos genes e enzimas.

Qual é o motivo de muitas pessoas acordarem uma ideia nova, uma solução para um problema ou um insight sobre algo que a aflige?

Ribeiro: De um lado, a concentração emocional no problema em questão. Do outro lado, a recombinação de ideias propiciada pelo sono, que simula futuros possíveis e de vez em quando produz soluções maravilhosas.

Quem dorme pouco ou tem distúrbios de sono está sujeito a que tipo de problemas?

Ribeiro: Obesidade, ansiedade, depressão, perda de memória, problemas vasculares e, no longo prazo, mal de Alzheimer. Dormir bem é extremamente saudável.

Há diferença entre lembrar ou não lembrar nos sonhos? Por que motivo?

Ribeiro: Quase todo mundo sonha a cada noite, mas muitas pessoas não se lembram disso. A capacidade de se lembrar dos sonhos ao despertar vem com o hábito de buscá-los mentalmente antes de levantar da cama, mas também da expressão consciente, antes de dormir, do desejo de sonhar e lembrar no dia seguinte. A capacidade de lembrar e interpretar os próprios sonhos é uma poderosa ferramenta de autoconhecimento. Quando bem empregada, pode levar a grandes benefícios psicológicos.

O senhor costuma anotar seus sonhos? É importante fazer isso?

Ribeiro: Fiz isso regularmente por muitos anos. O ritmo diminuiu depois de ter filhos, pois demandam muita atenção desde cedo. Hoje registro mais os sonhos dos meus familiares do que os meus próprios, mas quando tenho algum “sonho magno”, aquele tipo de sonho super significativo que de vez em quando aparece, anoto cuidadosamente para poder interpretar depois.

 

Há uma relação também entre o sono e a criatividade?

Ribeiro: Com certeza. Esportistas, artistas, cientistas e empreendedores em geral se beneficiam da restauração e criatividade propiciada pelo sono e sonhos. Há exemplos famosos de criação onírica, como pinturas de Salvador Dalí, a tabela periódica de Mendeleev e a invenção da máquina de costura com ponto fixo, que revolucionou a indústria têxtil no século 19. Experimentos bem controlados mostram que o sono efetivamente favorece a restruturação de memórias, que é o mecanismo neural da criatividade.

Quais são os principais benefícios para as pessoas que pesquisas sobre sono podem trazer? 

Ribeiro: Uma aplicação prática de nossos estudos é a utilização inteligente da soneca no ambiente escolar, tanto para ajudar os alunos que dormiram mal à noite e precisam dormir antes da aula, quanto para ajudar todos os alunos a consolidar e processar memórias, após o aprendizado de novos conteúdos. Ampliando um pouco a perspectiva, creio que o uso da soneca no ambiente escolar e profissional pode aumentar a duração e a qualidade do aprendizado em todas as idades. Dormir melhor é uma necessidade do século 21.

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