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Papo de Futuro: Os caminhos da acessibilidade

29/01/2021

Papo de Futuro:  Os caminhos da acessibilidade

Qual o papel das instituições e profissionais da cultura no desenvolvimento de experiências integradas e voltadas para e com pessoas com deficiência, compreendendo a diversidade e pluralidade dos públicos frequentadores de museus e centros culturais? Nesta primeira edição do ano da série Papo de Futuro, Bruna Cruz, museóloga e coordenadora do Musehum, o Museu de Comunicações e Humanidades do Oi Futuro, e Leila Scaf, arquiteta e sócia fundadora da empresa LSR Arquitetura, debatem um tema da maior relevância: “Diálogos no Musehum: Acessibilidade em Pauta”. A mediação é de Rafaela Zanete, gestora cultural e professora, que atua na coordenação do Programa Educativo Oi Futuro, pela empresa Coeficiente Artístico. A série Papo de Futuro, organizada pelo Oi Futuro, é transmitida pelo canal do Instituto no Youtube, com acessibilidade em Libras.

“Hoje, temos orgulho de ter cravado, em pedra, inclusão, diversidade e acessibilidade dentro do planejamento estratégico do Oi Futuro. Isso não vem de um gestor, um curador, uma museóloga. Vem de muitas discussões, experiência e acolhimento”, enfatiza Bruna Cruz. “Saber como conviver com o diferente é que faz com que você abra a sua vida, e faça com que esse diferente seja incluído na sua vida”, ressalta Leila Scaf.

Confira abaixo outras dez reflexões de Bruna Cruz e Leila Scaf sobre o tema “Diálogos no Musehum: Acessibilidade em Pauta”.

1)Com a palavra, Bruna Cruz 

Bacharel em Museologia pela UniRio, Bruna Cruz se apresenta: “Sou uma mulher jovem, de cabelos brancos, visto uma roupa um pouco florida, alegre, com tons em azul. Estou em uma sala com livros, no Oi Futuro, e bem acompanhada da Coleção Arte e Tecnologia, que está servindo como fundo desse nosso encontro. Falo hoje de dentro do nosso Centro Cultural e Musehum”.

2)A primeira rede

Bruna se refere ao dia em que conheceu Leila Scaf. Foi no Edifício Capanema (sede do antigo Ministério da Educação e Cultura, no Centro da cidade). Estavam numa rede de acessibilidade e que depois, “nós, o coletivo, nominamos como territórios acessíveis”. Havia, também, outros representantes de importantes instituições de cultura e de memória da cidade do Rio de Janeiro. “É dali, sim, onde uma vez por mês a gente se reunia, trocava e debatia. Hoje, quando falamos sobre acessibilidade, eu lembro e reconheço o quanto essa rede foi importante na minha trajetória profissional. E mais ainda, ao Oi Futuro, que sempre participou, e já tinha uma atuação nessa rede antes da minha chegada. Eu só dei continuidade”.

3)O papel do Musehum nos processos de acessibilidades

“Há um ano, a gente, orgulhosamente, inaugurou a nova marca de um museu que tem quarenta anos, que nasce como Museu do Telephone, em que o objeto telefone era central na sua narrativa. Depois ele migra, no início dos anos 2000. A mudança de nome  é um posicionamento, uma forma como vemos a acessibilidade, que não está apenas na questão das barreiras físicas, está na atitudinal, na comunicação. No Museu das Telecomunicações, iniciamos uma atividade mais intensa da nossa exposição para um público diverso, criando alguns percursos acessíveis. Mas, no momento em que esse projeto estava sendo gestacionado dentro do seu embrião, ainda não tínhamos a visão da acessibilidade em um modelo mais universal”, conta Bruna. O Musehum vem com uma participação nessa rede, com trocas e eventos que essa rede produziu e coproduziu. No final de 2015, foi lançado o Caderno Acessibilidades e, a partir desta iniciativa, desenvolvem, por mais de cinco anos, ações continuadas, numa relação do Programa Educativo com instituições, como o INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos), a União dos Cegos do Brasil, o Instituto Benjamin Constant, a Associação Beneficente São Martinho e tantas outras parceiras.

4)Uma questão de atitude

“Ao mudarmos o nome para Musehum, assumimos uma atitude que já era muito clara do Oi Futuro, que é Comunicações e Humanidades. Já tínhamos experiências claramente desenhadas para um público diverso. Desde a vitrine, que é uma questão importante, com acesso a pessoas de diferentes estaturas e abertas ao toque para o público”. Bruna cita a própria marcação do espaço. Antes era fechado. As salas que ali existiam foram removidas e, hoje, a entrada e saída são livres. No que diz respeito à tecnologia, a museóloga destaca o VR com legenda, também disponível para pessoas surdas e ouvintes; uma sala com conteúdo de experiência imersiva e um formato para que cadeirantes tenha autonomia para se mover. “É precioso quando se cria um processo que tem estética, com um lugar de fala do acolhimento e da valorização da autonomia”.

5)A evolução dos museus nas exposições, na ótica de Leila Scaf

Arquiteta, formada pela Universidade Santa Úrsula, com passagem de seis anos no escritório de Oscar Niemeyer, Leila vem atuando em projetos em várias instituições do Brasil e, desde 2011, é deficiente física. “O fato de eu ter me transformado numa pessoa com deficiência é um marco na minha vida, o que me transforma em todas as áreas, inclusive, na profissional. Tive perdas, mas também, ganhos. Sai da bolha e o meu mundo ficou grande. Não que eu fosse uma pessoa alienada. E me perguntei: Que mundo é esse?” Leila se juntou a grupos que já discutiam acessibilidade cultural. “Eu não sabia nada sobre o que acontecia com uma pessoa cega ou com baixa visão, quando visitava uma exposição. Ou com uma pessoa surda, diante de algumas peças sonoras”. Ela ressalta a importância do Educativo em todo esse processo, e se refere ao CVI (Centro de Vida Independente), ONG com mais de trinta anos, em prol de pessoas com deficiência, que passa a frequentar. “O mundo de pessoas com deficiência é enorme, e as deficiências são diversas, específicas. Daí, alguns museus começam a abrir as suas portas para receber esses vários grupos. Passam a ser o local de encontro para o convívio com o diferente”.

6)O conceito sobre Comunicação e Humanidades

Para Bruna, o conceito é amplo, mas “quando colocamos a lupa da nossa experiência, que era um museu, que começa como Museu do Telephone, em 1981, e, no início dos anos 2000, recebe o nome de Museu das Telecomunicações, temos uma passagem de narrativa. Antes, falávamos só do objeto, mas, ele começa a ser contextualizado em outras relações, em outras frentes. A Aldeia Global, a chegada da internet. Quanto isso modificou e alterou o nosso comportamento enquanto sociedade! A chegada do Musehum e a incorporação desse conceito, que tem mais de 100 mil itens no acervo, e que são objetos de aproximação entre pessoas. O rádio, a TV, a mesa de PABX, o mobiliário de trabalho da telefonista, o próprio telefone, documentos e fotografias.  Começamos a olhar a tecnologia como uma grande questão humana. Como responderíamos a esse novo momento? Como daríamos conta de falar sobre tecnologia se não fosse pelo conceito de Comunicação e Humanidades? É um caminho que coloca em reflexão, e em questão o tempo inteiro”.

7)Onde começa a sensibilização

Bruna diz que a sensibilização se dá na vivência, na experiência que se tem sobre algo. “E, nós, Museu, como instituição, apostamos que a sensibilização começa no abrir as portas. Mais do que isso. No fazer, no motor, que tem a ver com a Comunicação, com a acessibilidade de gerar energia para que aquela pessoa venha ao Musehum. Temos que ofertar o meio para a pessoa vir. O provocar dessa mobilidade em trazer essa pessoa nesse corpo diverso para atuar junto conosco na galeria, no Musehum, na experiência do que acontece dentro do nosso espaço, é um passo importante para essa sensibilização. Porque a gente sensibiliza quem está vindo, nos sensibiliza porque a gente está acolhendo, sensibiliza toda a equipe que dá suporte para esse prédio funcionar. Toda essa experiência de receber pessoas é uma atitude de sensibilização, que, também, tem a ver com Comunicações e Humanidades”.

8)Os princípios do Desenho Universal

Leila responde sobre esse conceito que, em linhas gerais, significa permitir que todos possam utilizar, com autonomia e segurança, os diversos lugares, produtos e objetos. “Eu nunca havia parado para perguntar se todas as pessoas tinham condições para alcançar esse direito. Acho que esse conceito vem para você fazer os seus desenhos, conceder os seus espaços com equidade e com condições para que todos possam usar. Exemplo básico é o balcão de recepção de hotel. Uma pessoa de cadeira de rodas chega e fica olhando lá para cima para poder conversar. Esse mesmo balcão pode ter uma parte mais baixa para que o cadeirante seja atendido da mesma maneira”. Bruna complementa: “O modelo universal vem para atender, não particularidades e circuitos. A legenda é a mesma para todos. Claro que, dentro da estética, cada instituição vai conversar melhor com a sua marca. Na questão dos textos das exposições, sobretudo os de arte contemporânea, quando rodamos a pesquisa “Museus: Narrativas para o Futuro”, um dos apontamentos que recebemos era esse não interesse do público em ir a museus. É importante que o conteúdo esteja rico em informação, mas, com sensibilidade, para que a maior parte das pessoas tenha um entendimento”.

9)Curadoria, artistas ou gestores: quem é mais difícil de sensibilizar

“No meu trajeto de vida, não há um profissional específico que tenha dificuldades. Na exposição do Miguel do Rio Branco, por exemplo, com aquela instalação fantástica, uma pessoa cadeirante entrava tranquilamente. Não tem uma ou outra profissão mais difícil, a sensibilização é da pessoa”, responde Leila. Bruna acredita na força do coletivo. “Quando temos um coletivo que faz parte de uma instituição, mais do que os gestores, os curadores, os artistas, os arte-educadores, os museólogos, nós somos esse coletivo. E, ao fomentar essa rede de conversação sobre a temática da acessibilidade, a gente vai se fortalecendo e levamos isso para dentro de reuniões institucionais. Trabalhamos com pessoas surdas, recebemos pessoas cegas. Todo esse coletivo, quando se organiza, consegue caminhar para dentro da instituição”.

10)Reflexões finais

Para Bruna, ainda há muitos desafios pela frente, em relação à questão da acessibilidade. Ela provocou um pensamento para os próximos encontros, que é a acessibilidade em tempos digitais. Como lidar com educação digital, com as novas experiências de conteúdo imersivo, como VRs e Hiper-realidade. Precisamos discutir e ganhar esses territórios. Leila diz que trocas sempre são bem-vindas. “Estou bastante curiosa por esse boom digital. Desejo que esta pandemia nos traga esta transformação: o afeto e a colaboração”.

Você pode conferir a íntegra do encontro online sobre o tema “Diálogos no Musehum: Acessibilidade em Pautaaqui.

 

 

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