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Rio2C: Novos olhares para aprender sem medo de errar

22/04/2019

Rio2C: Novos olhares para aprender sem medo de errar

O incentivo à criatividade nos processos de aprendizagem esbarra frequentemente em pelo menos duas barreiras criadas no ambiente escolar ao longo do tempo. Uma é a ideia de que razão e emoção não devem se misturar, o que leva grande parte dos professores a condenar a afetividade no processo de aprendizagem. A outra é a cultura de repressão ao erro, que deixa de ser trabalhado como uma oportunidade para o aprimoramento do estudante. Novas abordagens pedagógicas e científicas, no entanto, têm tentando derrubar esses obstáculos.

O professor e pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC) Guilherme Brockington explica que a neurociência vem demonstrando nos últimos anos o quanto a emoção é um componente fundamental no processo cognitivo.  O conhecimento armazenado no cérebro é constantemente associado a fatores afetivos vivenciados pelas pessoas. Desde a década de 1990, pesquisas na área apontam a associação entre o envolvimento emocional e a apreensão dos conteúdos. Mas aplicar tais descobertas ao contexto da sala de aula ainda é um desafio.

“Por conta a influência da filosofia grega clássica, criamos um preconceito muito arraigado de que a emoção atrapalha a razão e que é preciso separá-las. Mas a neurociência demonstra que são sistemas interdependentes”, afirma Brockington, palestrante do painel “Cérebro e Aprendizagem” na Rio2C 2019.

Para o pesquisador, que estuda o tema há dez anos, trazer o tema para a conferência é também oportunidade para que os educadores presentes debatam o assunto e deem sua contribuição. Isto porque a ciência ainda não encontrou a solução para a aplicação desses novos conhecimentos. Segundo ele, há até avanços no campo pedagógico, na medida em que muitos professores atualmente se preocupam em transformar a aula em um momento mais agradável para o aluno, percebendo que os resultados melhoram com um clima mais positivo.

Mas não se trata apenas, de acordo com ele, de introduzir recursos motivacionais. É preciso relacionar os aspectos afetivos com os cognitivos, o que ainda não foi explorado academicamente. Vencer esses obstáculos poderia proporcionar a formação de novas gerações muito mais preparadas para compreender o mundo e colaborar criativamente.

“A neurociência precisa se unir à pedagogia para construir formas de colocar esses conhecimentos em prática.  E a maior dificuldade para isso é a separação que existe hoje nas universidades entre os departamentos ou centos de humanas e exatas, que precisam trabalhar mais conjuntamente”, defende o pesquisador.

O desenvolvimento de novas metodologias de ensino que estimulem a criatividade e a capacidade cognitiva dos alunos é de fato um desafio para os educadores. Uma mudança que vem sendo posta em prática nesse campo é no tratamento dado aos erros cometidos nas respostas orais ou em provas e avaliações formais. No lugar de simplesmente reprimir as incorreções, elas estão servindo de base para que eles busquem as soluções e repensem as questões.

Essas práticas já são rotina no Colégio Estadual José Leite Lopes, escola no Rio de Janeiro que faz parte do NAVE (Núcleo Avançado em Educação), programa do Oi Futuro desenvolvido em parceria público privada com a Secretaria Estadual de Educação. A professora de biologia Andrea Piratininga explica, por exemplo, que em suas aulas tenta mostrar que cada situação exige uma solução diferente e que encarar o erro do aluno como uma oportunidade para estimular seu desenvolvimento e o do grupo é fundamental.

“É sabido que usar o celular em sala de aula atrapalha. Mas uma vez, diante disso, pedi ao aluno para aproveitar o aparelho para pesquisar o termo ‘protozoário’.  Em vez de apenas reprimir, podemos utilizar o erro para o aprimoramento, o desenvolvimento”, conta a professora.

Andrea também dá o exemplo da aula em que pediu para os próprios alunos prepararem o roteiro. Foi uma situação invertida em que eles tiveram que pesquisar sobre o tema e apresenta-lo no lugar do docente. Mesmo que o resultado não seja a perfeição de um especialista, o enriquecimento do estudante acaba sendo maior em situações como essa.  A educadora também procura discutir com os alunos as respostas incorretas que surgem nas avaliações para que essa análise ajude no aprendizado de todos.

“Como um erro marca, ele pode ajudar a fixar o conhecimento melhor na memória. Se isso for trabalhado de forma proveitosa, os alunos podem se tornar adultos mais criativos e pensantes”, afirma Andrea.

Para a professora da Faculdade de Educação da UFRJ Elaine Constant, a cultura da repressão ao erro pode ter criado gerações mais retraídas em relação à busca do conhecimento. Como o erro no ambiente escolar ainda é visto de forma negativa é comum encontrar muitos estudantes que levam para suas vidas adultas esse medo de se aventurar nos assuntos relacionados à sua realidade profissional.

“O erro é um ponto de partida e não um ponto final, como muitos pensam. A partir dele o estudante pode se aperfeiçoar, ampliar sua capacidade. Do contrário, ele só cria um medo de se expor. Mudando nossa percepção diante do erro, podemos formar gerações mais criativas no futuro”, explica Elaine.

A professora cita alguns exemplos de como essa nova abordagem pode ser utilizada e lembra quando lecionava o Ensino Fundamental e acolhia colocações de alunos que pareciam desafiar o que estava sendo ensinado.

“Uma vez um aluno meu me perguntou por que a baleia era um mamífero se era um peixe. Acabei tendo que buscar uma explicação melhor, em vez de repreendê-lo”, conta a professora que defende formas de avaliação mais flexíveis. “Precisamos avançar na avaliação formativa, que ajude no aprendizado e não vire uma vingança contra o aluno”, afirma Elaine.

Em um mundo cada vez mais competitivo e com mudanças tecnológicas constantes, debater sobre novas formas de aprender e ensinar é fundamental. Não apenas para criar um ambiente onde a educação seja mais inovadora e criativa, mas para que de fato possa ser uma ferramenta de transformação e inclusão social.

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